Naveguei pelas listas de melhores discos de jazz e de música clássica de 2025 e encontrei um álbum que, sem forçar a barra, poderia figurar tranquilamente no topo das duas.
Ride into the Sun, lançado em agosto pela Nonesuch Records, é uma delicada e ambiciosa homenagem que Brad Mehldau presta a Elliott Smith. Mehldau conheceu Smith nos anos 1990, em Los Angeles; tocaram juntos, partilharam palcos e silêncios. Vinte e dois anos após a morte do cantor, o pianista devolve o gesto: toma dez canções do amigo, acrescenta quatro composições originais inspiradas no seu universo e ainda visita “Thirteen” (Big Star) e “Sunday” (Nick Drake, o avô visionário que Smith tanto admirava).
Além dos pianos de Mehldau, o disco traz Daniel Rossen na guitarra, Chris Thile no mandolin, Felix Moseholm e John Davis no baixo acústico e Matt Chamberlain na bateria. Tudo isso envolto por uma orquestra de câmara com dezoito músicos conduzida por Dan Coleman, que também co-produziu o álbum.
O resultado é um trabalho orquestral e intimista ao mesmo tempo. Aqui não há catarse explosiva nem negação da dor. Há uma melancolia schubertiana filtrada pelo jazz, um luto que sorri através das lágrimas, nas palavras do próprio Mehldau. É uma espécie de pomposidade minimalista: a orquestra sussurra grandiosidade contida, as cordas acumulam-se devagar como nuvens de outono e o piano improvisa com a paciência de quem sabe que a saudade não tem pressa.
Os solos jazzísticos não roubam a cena. Respeitam o pano de fundo etéreo de Smith, abraçam-no, expandem-no. Em “Between the Bars” ou na longa “Ride into the Sun: Conclusion”, o ouvinte sente o tempo suspenso. A música parece flutuar dentro de uma lembrança que se recusa a desaparecer.
Ride into the Sun não tenta salvar Elliott Smith da melancolia. Acolhe-a, eleva-a e a transforma em beleza maior sem nunca traí-la. O luto aqui não esmaga. É como se Mehldau dissesse, em cada nota: “Eu sei que você se foi, mas enquanto esta música existir, você continua vivo, inteiro e luminoso”.
Ao borrar com naturalidade as fronteiras entre jazz improvisado e música de câmara, entre a intimidade sussurrada e a grandeza orquestral, o álbum ocupa um território raro onde dois mundos se reconhecem como primos-irmãos. Não pertence apenas ao jazz ou apenas à música clássica. Pertence a um tempo em que a saudade ainda consegue soar agridoce e, paradoxalmente, cheia de vida.
Se em 2025 você só puder ouvir um disco que sorri através das lágrimas, que seja este.