Acabei de assistir Frankenstein, dirigido por Guilherme del Toro.
Não queria que isso soasse como implicância gratuita, mas achei o filme extremamente cansativo justamente pelo elemento que vem sendo mais elogiado: o visual.
É preciso discutir a opulência visual no cinema. Quando tudo é exageradamente bonito, dourado, colorido, cheio de detalhes e em movimento constante, a beleza perde seu potencial epifânico e se torna ordinária, reduzida a mero ornamento.
Quando a beleza vira o padrão, e não a exceção, ela neutraliza o olhar, torna-se anestésica e perde força dramática.
No caso de del Toro, essa saturação estética costuma substituir a substância narrativa.
Sua filmografia é repleta de personagens rasos e histórias frágeis embaladas em exuberância visual, o que produz uma falsa impressão de profundidade.
Confesso que ainda não superei (e talvez nunca supere) bizarrices como A Forma da Água.
Em Frankenstein, esse problema quase é evitado porque del Toro não é, graças à Deus, o autor da história, mas apenas seu intérprete.
Mary Shelley, pra mim, escreveu talvez o maior romance gótico de todos os tempos.
Frankenstein é uma reflexão sobre a ambição humana de ocupar o lugar de Deus, transformada em fogo prometeico, e sobre como esse fogo ilumina e, ao mesmo tempo, incinera a humanidade.
A narrativa atravessa a alegoria rousseauniana e a subverte, questiona o cientificismo iluminista e mergulha em dimensões metafísicas. Reinterpreta Prometeu e dialoga com o tema bíblico do conflito entre criatura e criador.
É também uma obra moralmente ambígua. Nela, ninguém é apenas vítima e ninguém é apenas algoz. A culpa é complexa, distribuída, tensionada. Essa arquitetura literária é justamente o que torna o livro inesgotável.
Tudo isso aparece na adaptação de del Toro? Apenas parcialmente.
Na minha visão, del Toro simplifica demais a ambiguidade moral da obra. Ao transformar todos os personagens em vítimas, ele esvazia o componente de vilania presente no romance original.
No livro, por exemplo, Victor é movido por orgulho intelectual e curiosidade científica; no filme, ele se torna vítima de traumas causados por um pai abusivo, reduzindo um conflito filosófico a uma psicologia de “daddy issues”.
Elizabeth também é reinventada. Sua relação mais ativa e empática com o monstro subverte a função passiva e sacrificial das mulheres em Shelley, mas faz isso sem oferecer um equivalente literariamente coerente.
Já a criatura é excessivamente “coitadizada”. A adaptação enfatiza sua dor, mas negligencia sua escolha moral. No romance, a célebre frase “Se eu não posso inspirar amor, causarei medo” não é apenas uma lamentação, mas uma tomada de posição ética. A criatura comete crimes por decisão consciente, reconhecendo sua própria capacidade de transgressão. Shelley constrói um ser trágico, dividido entre a ânsia de pertencimento e a violência que ele mesmo abraça. Não é um “mártir incompreendido”, mas uma figura profundamente contraditória.
Ao transformar todos em vítimas, del Toro esvazia a dimensão trágica da história. E, sem tragédia, Frankenstein deixa de ser a obra perturbadora que Shelley escreveu e se torna mais uma fábula melodramática coberta por camadas vistosas de art design.
No fundo, del Toro não dialoga com a complexidade original porque não acredita nela. A literatura de Shelley acredita no abismo.