Diane, 11:30 AM, February 24th. Entering the town of Twin Peaks.

Terminei, mais uma vez, de assistir às duas primeiras temporadas de Twin Peaks. É um ritual que repito há bastante tempo.

Voltar a essa série, para mim, é reencontrar um estado de espírito específico (ou vários). O mais impressionante é que, mesmo sabendo tudo o que vai acontecer, ainda consigo me sentir curioso, apreensivo e empolgado.

O que mais gosto em Twin Peaks é que ela não entrega o surrealismo lynchiano de imediato.

Primeiro, estabelece uma espécie de “falsa segurança” típica de uma novela policial, para só depois subvertê-la.

No início, o foco está na investigação de Dale Cooper sobre o assassinato de Laura Palmer. No entanto, ao longo da série, fica claro que há uma escolha deliberada de Lynch em destacar certos elementos excêntricos, muitas vezes à margem da narrativa principal.

Ao rever a série, percebe-se que, desde os primeiros episódios, coisas estranhas começam a acontecer fora do ponto focal. David Lynch frequentemente se detém em detalhes específicos, como o zumbido constante da eletricidade, o vento excessivo nos pinheiros e o comportamento inquietante de personagens secundários.

São mãos que começam a tremer, personagens que passam a dançar sem explicação aparente. Há aqui um claro aspecto de mistério que considero lovecraftiano. Quem conhece Lovecraft reconhece esse vocabulário da estranheza: em sua mitologia, a proximidade de forças ocultas, como ocorre com o Black Lodge, costuma provocar colapsos mentais ou comportamentos automáticos.

Twin Peaks funciona como uma espécie de Innsmouth: uma comunidade pequena onde o horror não vem de fora, mas de dimensões adjacentes que sempre estiveram ali, ocultas sob a floresta.

O agente Dale Cooper segue a trajetória clássica do protagonista do horror cósmico: um investigador racional que, ao tentar compreender o mistério, acaba mergulhando em uma realidade na qual a lógica humana não se aplica por completo.

Lynch, assim como Lovecraft, utiliza o cotidiano distorcido para sugerir que o mal é onipresente e insidioso.

A Red Room, por exemplo, não é um mundo completamente diferente do nosso.

O que a torna perturbadora é justamente o fato de ser um espaço parcialmente reconhecível.

Mark Frost, co-criador da série, frequentemente reforça que esse lugar habita uma zona de fronteira entre o sonho e a realidade física.

Reconhecemos cortinas, mobília, abajures, pessoas, mas tudo parece deslocado, como se nada correspondesse plenamente à normalidade.

Essa sensação de “mundo parcialmente reconhecível” é construída por meio de técnicas específicas que empurram o espectador para o chamado Vale da Estranheza.

Outro aspecto curioso da série, que não me agradou de imediato, mas que foi me conquistando aos poucos, é o contraste de tom que surge, especialmente da metade da segunda temporada até seus episódios finais. Nesse período, a série alterna entre o horror absoluto e um humor campy, quase bobo.

Esse descompasso tonal funciona como uma ferramenta de desorientação. Ao mergulhar o espectador em subtramas quase infantis ou puramente cômicas, a série “abaixa a guarda” de seu senso crítico e lógico.

É como se o próprio mundo de Twin Peaks estivesse enlouquecendo junto com seus personagens.

Quando o humor se torna excessivamente bobo, a realidade da série começa a se desfazer. Isso prepara o terreno para que, quando o horror do Black Lodge retorna, ele seja sentido como uma intrusão violenta e inevitável.

O desaparecimento de Laura Palmer era o centro gravitacional da narrativa. Após sua resolução, na metade da segunda temporada, o universo de Twin Peaks entra em um estado de entropia tonal.

Essa chamada “barriga” da segunda temporada, frequentemente criticada, é justamente o que torna o episódio final dirigido por Lynch tão impactante.

O choque entre a comédia de costumes e o pesadelo absoluto das cortinas vermelhas é o que consolida o trauma do espectador.

No fim, talvez seja por isso que sempre volto a Twin Peaks. Não para buscar respostas novas, mas para experimentar, mais uma vez, essa sensação de deslocamento controlado, em que o familiar se torna estranho e o estranho passa a parecer inevitável. A série não se esgota na narrativa nem no mistério resolvido, porque seu verdadeiro impacto está menos no que acontece e mais no estado mental que ela produz.

Reassistir Twin Peaks é aceitar essa instabilidade. É entrar, de novo, nesse mundo que finge normalidade enquanto se desfaz por dentro. E, a cada retorno, mesmo sabendo exatamente onde aquilo vai dar, o percurso continua desconfortável, hipnótico e, de alguma forma, sempre novo.

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