De todas as modinhas que existem hoje em dia, a de “crimes reais” e “serial killers” ocupa o trono das mais insuportáveis. Acho que essa onda de podcasts, filmes e documentários sobre assassinos é uma forma que a indústria cultural encontrou de suprir o desejo reprimido do jovem dinâmico de assistir Datena e Sikeira Jr. sem ter que parecer bolsonarista.
O auge do meu interesse foi “Dahmer: Um Canibal Americano”, que gostei mas passou longe do que eu estava de fato procurando.
Eis que me deparo com “Killer Sally”, uma minisérie documental feita pela Netflix sobre Sally McNeil, uma fisiculturista acusada de matar o marido, Ray McNeil (que também é fisiculturista) no Dia dos Namorados.
Na capa, uma bodybuilder posando na boca de fogo de um “fucking” tanque de guerra e a chamada “Fisiculturismo e Assassinato”.
Filhos da puta! Conseguiram de novo! Vou ter que assistir.
No final, eu gostei.
A história envolve crime passional e violência doméstica entre atletas de alta performance.
A primeira discussão interessante da série, que não foi aprofundada, é sobre a posição da vítima que não se parece com uma vítima.
Sally era fisiculturista. Seu corpo era impressionante. Ela também era wrestler e, pra piorar, era ex-mariner.
Ou seja, ela parece tudo, menos vítima.
Era forte, sabia lutar e sabia atirar. Era uma Sarah Connor. Ninguém olha para Sarah Conor e diz que ela precisa ser protegida.
No tribunal, seu advogado até recomendou que ela escondesse seus músculos e tentasse parecer “mais feminina” e “vulnerável”.
Existe alguns momentos bem interessantes no segundo episódio (e que também deveriam ser melhor explorados), que fala sobre o papel da mídia no caso.
Tanto Sally quanto seu marido foram bestializados na imprensa.
O fisiculturismo nos anos 90 era uma subcultura comparável ao punk nos anos 70. Escandalizava as famílias de comercial de margarina. Um casal bodybuilder e que ainda por cima era interracial, era uma coisa que o americano médio não estava muito acostumado (mesmo tendo sido educado culturalmente com filmes de ação do Arnold Schwarzenegger).
O publico em geral, antes de discutir o crime em si, estava discutindo inúmeras outras coisas. Independente da culpa de Sally, a mídia não humanizava os agentes do caso – reduzia-os em caricaturas.
O sensacionalismo midiático conseguiu transformar um caso sério em um mostruário “freak show” que, ironia das ironias, foi também a minha própria motivação para começar a ver a minisérie.
E eu gostei por causa disso.
A série me mostrou que eu sou tão filho da puta quanto todo mundo. Que se eu tivesse acompanhando o caso na época, eu seria um dos milhares que iriam ver isso na ótica do entretenimento.

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