Em japonês, Kairo (回路) pode significar “circuito elétrico” ou “pulso”. Esse também é o nome de um dos melhores filmes que vi recentemente.

Dirigido por Kiyoshi Kurosawa e lançado em 2001, o filme costuma ser classificado como terror e ficção científica. Eu, no entanto, não o colocaria em nenhuma dessas categorias. Sou do tipo que gosta de inventar classificações e novos gêneros que, para mim, fazem mais sentido — e que provavelmente só eu vou usar. Kairo é, para mim, um filme do gênero cyber-gótico xinto-lovecraftiano.

A trama gira em torno de fantasmas que invadem o mundo dos vivos por meio da Internet, com duas narrativas paralelas que eventualmente se cruzam. À medida que os fantasmas se materializam na história, os personagens começam a agir de forma estranha e, aos poucos, são levados à morte.

Não vou entrar em detalhes da trama, mas posso dizer que é possível extrair do filme inúmeras metáforas e comentários sociais — especialmente porque os personagens falam constantemente sobre solidão.

A maioria das pessoas que comentam o filme se concentra nisso. Elas não estão erradas. Mas acho que há mais coisas no filme.

Há, por exemplo, aspectos muito evidentes do xintoísmo. Um dos mais marcantes é a presença de uma porta misteriosa que deve ser selada com uma fita vermelha, funcionando como uma espécie de shimenawa. Atrás dessa porta — escondida nos escombros de uma fábrica abandonada — está o portal (torii) por onde os espíritos transitam entre os mundos.

A fábrica parece ter sido construída sobre um local energeticamente carregado, e sua demolição representou uma forma de profanação. A preservação espiritual dos espaços é tão importante no Japão que não se constrói nada sem a autorização e consagração de um sacerdote xintoísta.

Quando os espíritos escapam, eles o fazem pelas linhas telefônicas e invadem os computadores (sim, estamos naquela época).

Seu objetivo é trazer o maior número possível de pessoas do mundo dos vivos para o mundo dos mortos.

Neste filme, Kiyoshi Kurosawa trata os fantasmas como forças que tensionam o real e reconfiguram o cotidiano por meio do estranho e do desconfortável.

O fantasma não aparece apenas como uma imagem etérea: ele se comunica com os vivos, se manifesta fisicamente, assumindo uma corporalidade ambígua — ao mesmo tempo tátil, espectral e evanescente.

Há uma conexão poderosa entre o aspecto religioso e um comentário mais mundano e social. A narrativa espiritual, baseada na oposição entre o mundo dos vivos e o dos mortos, reflete — como um espelho — a oposição do mundo online e o mundo offline. Tanto o mundo dos mortos quanto o mundo online existem, mas não se materializam por completo, nem se fazem plenamente presentes.

A influência de Serial Experiments Lain é evidente, sobretudo no modo como o filme lida com o isolamento social, o digital e o virtual como portais para o sobrenatural, a perda da identidade, a estética minimalista, a lentidão e o estranhamento. Também há uma forte presença de H. P. Lovecraft — na ideia de terrores adormecidos que são provocados acidentalmente, despertam e se agigantam até culminar em uma apoteose apocalíptica, na qual a humanidade é simplesmente varrida da existência.

Em certo momento, próximo ao final do filme, vemos uma cena em que as ruas de Tóquio estão completamente vazias — como se o mundo dos mortos tivesse triunfado. É um dos melhores usos do medo de espaços liminares que já vi sendo usados – me deu arrepios!

Enfim, Kairo é um dos melhores filmes já feitos. Até agora, meu preferido do Kiyoshi Kurosawa.

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