Charisma é um filme profundamente enigmático e, confesso, de fruição difícil.

Antes de tudo, trata-se de uma obra que resiste a classificações simples. É complicado enquadrá-la em um único gênero. Talvez a definição mais próxima seja a de um eco-thriller de inclinação botânico-filosófica, ainda que essa etiqueta esteja longe de dar conta de suas ambições.

O enredo se recusa a oferecer respostas claras, e seus personagens são tão opacos quanto a própria estrutura narrativa. Acompanhamos Goro Yabuike, um policial emocionalmente sobrecarregado cuja hesitação em uma cena de sequestro resulta na morte tanto de um político quanto do criminoso que o mantinha refém. Diante da possibilidade de atirar, Yabuike recua. Escolhe não agir, movido pelo desejo de que ambos sobrevivessem. Essa escolha, ou essa incapacidade de escolha, ecoa por todo o filme.

Consumido pela culpa, ele decide tirar férias em meio à natureza, mas acaba se perdendo em uma floresta nos arredores de Tóquio. A partir do momento em que adentra esse espaço, o filme abandona progressivamente seu registro inicial mais próximo do realismo e assume uma feição marcadamente alegórica, na qual o simbolismo se sobrepõe ao naturalismo.

Sem intenção, Yabuike se vê envolvido em um conflito triplo centrado em uma árvore singular, apelidada por um dos moradores de “Charisma”. De um lado está Niriyama, seu principal cuidador, que a protege de forma quase fanática, impedindo qualquer tentativa de remoção ou interferência, ao mesmo tempo em que luta para mantê-la viva. Em oposição a ele surge Mitsuko, uma médica botânica de temperamento gentil, que sustenta que a árvore precisa ser removida para que a floresta como um todo sobreviva. Segundo ela, Charisma secreta uma toxina que envenena tudo ao seu redor. Há ainda um terceiro vetor de conflito: empreiteiros interessados em extrair a árvore para vendê-la com lucro.

Yabuike insiste em não tomar partido, postura que inevitavelmente o coloca em atrito com todos os envolvidos.

Fica claro que Charisma está menos interessado em narrativas convencionais ou em personagens moldados por arquétipos tradicionais do que em temas, metáforas e construções parabólicas. Essa escolha estética e narrativa confere ao filme um apelo bastante específico dentro da filmografia de Kiyoshi Kurosawa e provavelmente explica sua posição mais marginal em relação às obras mais conhecidas do diretor.

A natureza metafórica dos acontecimentos exige do espectador uma leitura interpretativa constante, não apenas da árvore que dá título ao filme, mas também de cada personagem e de suas ações. A narrativa articula reflexões filosóficas sobre vida e morte, sobre o valor do indivíduo em relação ao coletivo e sobre as tensões e armadilhas da neutralidade.

As perguntas que atravessam o percurso do protagonista são diretas: vale a pena preservar essa árvore? Seria justo fazê-lo? É possível manter viva tanto a árvore quanto o restante da floresta? Essas questões reaparecem sob diferentes formas ao longo do filme, ressoando desde sua abertura, quando Yabuike, ao tentar salvar tanto o criminoso quanto sua vítima, acaba perdendo ambos.

Formalmente, o filme é coerente com o estilo de Kurosawa. Há um minimalismo rigoroso que reforça sua materialidade: poucos movimentos de câmera, poucos cortes e uma atmosfera de observação distante. Em muitos momentos, a sensação é menos a de assistir a uma encenação e mais a de testemunhar acontecimentos de maneira quase documental. A iluminação artificial é mínima ou inexistente, com preferência pela luz natural, e ainda assim o diretor constrói enquadramentos de notável sensibilidade visual por meio de escolhas precisas de ângulos e planos.

Apesar dessas qualidades, o filme se revela cansativo. Suas alegorias são mais evidentes do que o próprio diretor parece supor, e a atmosfera críptica, em diversos momentos, soa excessiva e pouco funcional. Algumas premissas temáticas são apresentadas, desenvolvidas, desconstruídas e retomadas de forma insistente, até o ponto da exaustão. É como se o filme orbitasse, por quase duas horas, em torno do conhecido dilema utilitarista formulado por Philippa Foot, popularmente associado ao “dilema do trem”. Vale a pena sacrificar um para salvar muitos? O valor da vida pode ser mensurado? Existe um equilíbrio possível entre o indivíduo e a coletividade? Embora filosoficamente instigante, esse problema talvez não justificasse tamanha duração ou investimento dramático. Charisma possivelmente funcionaria de forma mais eficaz como um curta ou média-metragem.

Talvez seu maior mérito esteja em dissolver dicotomias fáceis entre cidade e campo, homem e natureza, ou naturalismo e racionalismo. Conflitos tipicamente urbanos, como o embate entre interesses individuais e coletivos, são deslocados para o interior da floresta, espaço tradicionalmente associado à fuga, ao silêncio ou ao refúgio.

É possível que eu revisite Charisma no futuro e passe a enxergá-lo com mais generosidade. Por ora, no entanto, preciso ser honesto: foi uma experiência tediosa, ainda que válida.

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