Our Time Will Come é um filme de guerra de 2017 dirigido por Ann Hui.
Ambientado na década de 1940, durante a ocupação japonesa de Hong Kong, o longa narra a trajetória de Fang Gu, uma figura lendária da resistência local.
Fang é uma jovem estudiosa que vive com a mãe, responsável por alugar quartos a diversos intelectuais dissidentes. Entre os inquilinos está o escritor, poeta e jornalista Mao Dun, por quem Fang nutre profunda admiração.
Ao descobrir que os japoneses planejam executar parte da elite intelectual da cidade, um grupo clandestino de guerrilheiros — conhecido como Coluna do Rio Leste — intensifica sua atuação, organizando a fuga desses intelectuais rumo à chamada “China Livre”.
Fang decide então integrar o movimento de resistência, atuando ao lado de Blackie Lau, que ajuda Mao Dun e sua esposa a escaparem da cidade.
O filme retrata não apenas os esforços pela liberdade, mas também os dilemas morais e os conflitos internos daqueles que participaram da resistência. A narrativa é conduzida por um velho taxista, entrevistado para um documentário fictício dirigido pela própria Ann Hui dentro da diegese do filme — e que relembra as pessoas que conheceu na infância.
Um dos aspectos mais notáveis da obra, além do protagonismo feminino e das camadas metalinguísticas, é a combinação sofisticada entre ficção e realidade histórica.
Embora o contexto retratado seja verídico, a maior parte dos personagens é inteiramente ficcional. Com exceção de Mao Dun e da Coluna do Rio Leste, todos os demais — incluindo o taxista-narrador e os protagonistas Fang Gu e Blackie Lau — são invenções do roteiro. Inclusive, alguns eventos, como o suposto “contrabando de intelectuais” para a China Livre, não possuem confirmação histórica.
O filme trabalha não com a fidelidade documental, mas com a liberdade criativa a partir de um imaginário literário e político.
É possível, inclusive, que alguns personagens tenham sido inspirados na obra de Mao Dun, marcada por ideais progressistas e pela figura da “nova mulher” — um arquétipo feminista influenciado pela literatura de Henry James, no qual a mulher é independente, ativa e politicamente engajada.
Mao Dun, aliás, é uma figura complexa. Um dos fundadores do Partido Comunista Chinês, ele ocupou o cargo de Ministro da Cultura da República Popular da China entre 1949 e 1965. Ainda assim, sua trajetória literária se impôs com mais força do que sua vida política: ao longo de sua carreira, publicou cerca de 100 obras — entre contos, romances e ensaios teóricos.
Apesar de respeitado até hoje, é um personagem ambíguo. Não chega a ser considerado um dissidente, mas afastou-se do Partido em algumas ocasiões e chegou a ser expulso enquanto ainda era ministro — sendo reabilitado posteriormente. A partir dos anos 1930, sua literatura passou a adotar um tom mais conservador, valorizando aspectos da China pré-revolucionária. Essa guinada pode ter incomodado parte do establishment comunista, ainda que sua influência ocidental — de matriz mais liberal e inglesa do que revolucionária e soviética — tenha sido tolerada.
A protagonista Fang Gu parece refletir esse espírito. Suas motivações para aderir à resistência não se baseiam tanto em causas sociais ou ideológicas, mas em impulsos pessoais e senso de dever. Trata-se de um chamado heroico individual, mais ligado à autonomia e à ação pessoal do que ao ideal coletivo dos heróis revolucionários. Essa abordagem confere à personagem complexidade e a distancia, com elegância, da lógica do “herói do povo” típico das narrativas panfletárias.
Esse deve ser o terceiro ou quarto filme de Ann Hui ambientado em Hong Kong durante a Segunda Guerra — e impressiona sua capacidade de nunca se repetir.
Gosto especialmente de como Ann Hui consegue se posicionar politicamente sem soar panfletária. Esse tipo de enredo, nas mãos de um diretor menos sutil, poderia facilmente descambar para um discurso anti-nipônico vulgar — ao gosto do nacionalismo chinês. (E não que isso fosse injustificável: os chineses, sem dúvida, têm todos os motivos do mundo para construir esse tipo de narrativa.)
No entanto, Hui opta por uma abordagem divergente: se focando na coragem e no heroísmo individual. Our Time Will Come se torna menos uma fábula patriótica e mais um retrato humano, íntimo e ético sobre o que significa resistir.