O Segredo é o primeiro longa-metragem de Ann Hui, lançado em 1979.

O filme parte de um caso real: o duplo homicídio de um casal na floresta de Lung Fu Shan, em Hong Kong, em 1970. As vítimas foram encontradas com as mãos amarradas para trás e sinais de estrangulamento, praticado com as próprias roupas íntimas. O cenário onde os corpos foram descobertos era uma área isolada, acessível apenas por uma longa escadaria de pedra com cerca de 300 degraus. Na época, a região era conhecida como ponto de encontro de casais, o que, para a polícia, indicava uma lógica de escolha das vítimas. Um mês antes do homicídio, outro casal já havia sido atacado na mesma área, escapando com vida, mas sofrendo agressões e abuso.

O principal suspeito era um homem de 35 anos, apelidado de “Silly Chen”, diagnosticado com esquizofrenia. Segundo relatos de moradores, ele se tornava agressivo sempre que presenciava situações de intimidade entre homens e mulheres. A polícia, ciente desse padrão, chegou a mobilizar agentes disfarçados de casais para tentar capturá-lo.

No entanto, Ann Hui não adota o caminho de uma reconstituição fiel ou documental. Em vez disso, constrói uma narrativa que se aproxima do thriller psicológico, investindo em atmosferas ambíguas, que oscilam entre a investigação policial e a sugestão de forças ocultas. O filme assume traços de film noir pela constante sensação de dúvida em relação ao que se vê e ao que se sabe.

O filme se inicia com um funeral budista: monjas entoam cânticos fúnebres enquanto bonecos de papel — representando o casal assassinado — são queimados em um ritual. A cena, carregada de simbolismo, cria um elo entre a materialidade do crime e uma sugestão espiritual, estabelecendo desde o início um diálogo entre violência, morte e misticismo.

Ao longo da narrativa, Ann Hui alterna registros visuais contrastantes. De um lado, há imagens delicadas e contemplativas, como planos fechados nos pés de um casal ou no pouso leve de uma borboleta. De outro, surgem quadros mais duros e perturbadores: procedimentos de autópsia, closes em rostos dilacerados e a exposição direta da violência física. Essa alternância não é gratuita; ela reproduz no campo estético a oscilação entre a intimidade interrompida dos casais e a brutalidade dos ataques.

Elementos de superstição e religiosidade popular também atravessam a narrativa. Em uma cena, a mãe do suspeito realiza um ritual com o sangue de uma galinha logo após a prisão do filho, um gesto que parece mais próximo de um exorcismo rural do que de uma prática religiosa estruturada. Em outras passagens, personagens relatam ver aparições da vítima em espelhos, ouvir vozes ou sentir presenças invisíveis. O filme, contudo, nunca confirma o sobrenatural: mantém o espectador no terreno da dúvida, sugerindo que tais experiências podem ser manifestações psicológicas coletivas diante do trauma.

Há ainda a figura inquietante de uma mulher que circula pelo local do crime vestindo roupas semelhantes às da vítima, como uma espécie de duplo ou fantasma vivo, que intensifica a atmosfera de incerteza e desestabiliza a noção de identidade. Esses elementos reforçam o caráter ambíguo do filme, que se move entre o realismo da investigação criminal e a sugestão espectral.

A narrativa culmina em um desfecho de violência generalizada, no qual diferentes personagens, cada qual movido por seus próprios motivos, acabam envolvidos em um bacanal dionisíaco de sangue.

Nesse sentido, O Segredo apresenta marcas centrais do cinema de Hong Kong da época: a exposição gráfica da violência, o interesse por mistérios policiais e a sugestão de elementos sobrenaturais. No entanto, se distingue de muitas produções contemporâneas por deslocar a ação do espaço urbano — cenário recorrente no cinema local — para áreas periféricas, cercadas por reservas naturais.

Como estreia, Ann Hui demonstra habilidade em transformar um caso policial brutal em uma obra que sublima o realismo factual. Ao articular crime, mistério, superstição e violência, a diretora cria um filme que dialoga tanto com as convenções do film noir quanto com o imaginário cultural de Hong Kong. O Segredo não apenas anuncia a sensibilidade estética de Hui, mas também revela uma das características que marcariam sua trajetória: a capacidade de explorar a tensão entre realidade e dimensão simbólica, entre o que é vivido e o que é imaginado.

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