The Wicker Man, filme de Robin Hardy lançado em 1973, é um classico do cinema de horror e fantasia, inspirado no romance Ritual, de David Pinner.

A trama gira em torno do desaparecimento de uma garota em uma ilha escocesa.

Um detetive britânico chamado Howie, que é também um cristão devoto, é convocado para esclarecer o mistério, onde fica conhecendo a exótica e misteriosa população do vilarejo, cujo líder é um enigmático aristocrata chamado Lord Summerisle (interpretado por Christopher Lee).

Após conhecer os estranhos cultos e crenças da comunidade, o detetive Howie acaba descobrindo que foi vítima de uma armadilha arquitetada pelos próprios habitantes da comunidade, que o sacrificam num gigantesco boneco de palha (The Wicker Man) a fim de salvar as colheitas fracassadas.

A sensação de ter não apenas um assassino, mas toda uma comunidade, não apenas intensifica a sensação de sufocamento como potencializa significativamente a o terror do desamparo. Não havia para onde correr e, pior, não havia para quem apelar.

As últimas cenas de The Wicker Man, onde o protagonista tenta desesperadamente argumentar contra a população que está prestes a lhe sacrificar, é uma das mais assustadoras que eu já vi.

O detetive Howie utiliza todo seu repertório conhecido de argumentos para, em vão, se livrar daquela situação, primeiro apelando como cristão em uma tentativa de iluminar as consciências morais de todos os presentes, depois tentando apelar para uma razão cientifica contra as superstições locais, argumentando que as colheitas da comunidade foram fracassadas naquele ano por conta de imperícia e que um sacrifício não resolveria nada.

Sempre achei esse filme muito mais complexo do que a análise geralmente míope que tenta reduzi-lo num conflito entre cristianismo (especialmente na sua vertente mais puritana) e paganismo.

A colisão entre os valores do personagem principal e a comunidade delineam uma multiplicidade de outros conflitos como: civilização contra selvageria (tema recorrente na literatura britânica), indivíduo contra coletivo, razão iluminista contra religiosidade medieval, sociedade industrial contra comunidade agrária e cidade contra campo.

O próprio paganismo mostrado no filme é bem pouco ortodoxo se for analisado criteriosamente, pois trata-se de uma mistura de muitas tradições diferentes – embora orbitem primordialmente aspectos do paganismo celta.

Em suas discussões com Howie, o próprio Lord Summerisle explica que as práticas pagãs adotadas pelos ilhéus não eram tradicionais, mas organizadas pelo seu avô: um homem moderno, muito rico e criativo da era vitoriana, que inventou uma religião nova com base nos seus estudos de cultos pré-cristão.

O filme tem vários outros distintivos que o definem como único em diversos outros aspectos.

No entanto, vou me focar em apenas um: a música.

Uma das principais características do filme é que ele é todo permeado por musica. Talvez, dentre todos os filmes de horror, The Wicker Man seja o mais musical. Do começo ao fim do filme, as canções são inseridas na cenas tanto de forma diegética (ou seja, inserida dentro do contexto da narrativa e executada pelos personagens), quanto metadiegética (quando a música não está de fato na narrativa, mas se comunica diretamente com as cenas, servindo como moldura sonora ou descrevendo paisagens).

Quando assisti pela primeira vez, considerei seriamente a colocar The Wicker Man como uma espécie de musical folk sombrio.

As músicas do filme são basicamente divididas entre reverências idolátricas da natureza e temáticas sexuais. Estes temas são apresentados com aspectos lúdicos e até infantis, valorizando especialmente os apanágios da fertilidade, tanto do solo quanto das mulheres.

Toda essa musicalidade do filme abre outra dimensão de conflitos que ocorrem especificamente no campo da linguagem. Howie representa a burocracia dos decretos e da legislação, ou seja o império (e o amparo) da lei e da razoabilidade. A comunidade, por sua vez, é toda permeada por música, danças, sexo e festivais – andentrando as dimensões mais inebriantes da experiência humana.

As zonas de conflitos entre espírito, razão e matéria sempre foram complexas e no filme não é diferente. Não existe aqui um posicionamento claro por parte do diretor – e também não deveria ser tão claro pela parte do público.

Apesar do filme mostrar o protagonista como um típico cristão reprimido e autoritário, o terror do filme é conduzido pela irracionalidade coletiva de uma comunidade religiosamente fanática, violenta e supersticiosa.

Em suma, muito além do terror, The Wicker Man é um dos melhores filmes da história.

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