Getting Killed é o terceiro álbum de estúdio da banda nova-iorquina Geese, lançado em 26 de setembro de 2025 pelo selo Partisan Records. O disco consolida a identidade construída nos trabalhos anteriores, mas também amplia de forma decisiva o vocabulário sonoro do grupo, apontando para uma fase mais ambiciosa, autoconsciente e formalmente arriscada.
A base estética do Geese permanece firmemente ancorada no post-punk. Ecos de bandas como Television e Parquet Courts surgem na condução rítmica nervosa, nas guitarras angulares e no senso de urgência que atravessa as composições. Em Getting Killed, no entanto, essa fundação é tensionada e expandida por arranjos mais intrincados, maior atenção às texturas instrumentais e mudanças dinâmicas mais abruptas, incorporando uma dimensão claramente associada ao art rock.
Essa expansão se manifesta de forma mais evidente na estrutura interna do álbum. Um dos seus aspectos centrais é a justaposição constante entre extremos sonoros. Momentos próximos do caos, marcados por guitarras estridentes e bateria agressiva, convivem com passagens mais contidas, melódicas e quase introspectivas. Essa alternância não funciona apenas como contraste estilístico, mas como princípio organizador do disco. A tensão nunca se resolve completamente. O Geese parece menos interessado em oferecer catarse do que em sustentar o atrito entre energia bruta e controle formal.
Embora a sonoridade seja inequivocamente contemporânea, o álbum estabelece um diálogo explícito com o rock dos anos 1970. Há referências perceptíveis ao David Bowie da fase Ziggy Stardust, sobretudo na teatralidade vocal e na disposição para assumir personagens instáveis e performáticos. Também surgem paralelos com os Rolling Stones, especialmente na atitude vocal e no trabalho de guitarra, que em alguns momentos privilegia groove e balanço em detrimento de precisão técnica excessiva.
Nesse contexto, Cameron Winter se afirma como o principal eixo expressivo do álbum. Sua performance vocal é notavelmente versátil, oscilando entre um registro áspero, urgente e quase desesperado, e um falsete melancólico e frágil. Essa amplitude confere densidade emocional às canções e reforça o caráter instável do disco. Winter não canta para oferecer conforto. Sua voz frequentemente soa como um corpo em tensão permanente, à beira do colapso, em sintonia direta com o clima de inquietação que atravessa as letras.
Do ponto de vista lírico, Getting Killed se concentra nas ansiedades difusas, na exaustão emocional e na confusão identitária de crescer em um mundo marcado por instabilidade contínua. O álbum funciona como um retrato fragmentado da experiência contemporânea, no qual ameaças globais, colapsos simbólicos e crises íntimas se misturam de forma inseparável.
As letras, escritas por Winter, frequentemente justapõem o registro pessoal ao apocalíptico. Situações íntimas e afetos privados são atravessados por imagens de catástrofe iminente, refletindo a desorientação de uma geração formada sob crises sucessivas, excesso de informação e ausência de horizontes estáveis. O eu lírico raramente se apresenta como coeso. Ele oscila, reage e se fragmenta diante de um mundo que parece permanentemente à beira do colapso.
Esse sentimento de fatalidade se impõe desde a abertura do disco. Em “Trinidad”, o verso inicial “There’s a bomb in my car!” estabelece de imediato um estado de alerta. A imagem funciona tanto de maneira literal quanto simbólica. Trata-se de uma ameaça invisível, em movimento, impossível de ser ignorada. A partir desse ponto, o álbum passa a lidar com medos coletivos ligados à guerra, à violência e à sensação de que o mundo está em chamas, seja de forma concreta, seja como metáfora de um esgotamento emocional e social generalizado.
Apesar da ênfase no caos externo, Winter dedica atenção significativa às dinâmicas internas, especialmente à solidão e à dificuldade de sustentar vínculos afetivos duradouros. Os relacionamentos aparecem atravessados por distanciamento emocional e, em alguns momentos, por uma hostilidade defensiva. Em “Half Real”, o amor não surge como abrigo, mas como fonte adicional de desgaste. A canção sugere que pode ser mais fácil apagar as memórias felizes do que conviver com o peso do que fracassou, reforçando uma visão desencantada das relações humanas.
O álbum também aborda questões sociais e institucionais por meio de uma combinação de humor ácido e desespero existencial. “Taxes” é exemplar nesse sentido. Ao misturar elementos banais da vida adulta, como o pagamento de impostos, com imagens bíblicas de sacrifício e martírio, Winter transforma a obrigação cívica em um gesto quase ritualístico. O verso “If you want me to pay my taxes / You better come with a crucifix / You’re gonna have to nail me down” expressa uma rejeição irônica das responsabilidades sociais em um contexto percebido como moralmente falido e estruturalmente opressivo.

Em meio a esse cenário de colapso, o disco revela uma busca persistente por identidade e direção. Winter recorre a metáforas ligadas ao deslocamento e à transformação, como marinheiros, barcos, carros e estradas, para representar um sujeito em movimento contínuo, ainda que sem destino claramente definido. A identidade surge como algo instável, moldado pelas circunstâncias e constantemente reconfigurado.
O encerramento do álbum não oferece resolução plena, mas sugere continuidade e ambiguidade. Ao afirmar “Nobody knows where they’re going except me”, Winter não soa confiante no sentido tradicional. A frase carrega simultaneamente um gesto de afirmação e uma ironia latente, indicando que essa certeza pode ser provisória, frágil ou mesmo ilusória.
Ao longo de todo o disco, imagens religiosas e referências bíblicas, como Maria, anjos e crucificações, são mobilizadas para intensificar as tensões internas e externas do eu lírico. Essas referências aparecem frequentemente de forma surrealista ou paródica, esvaziadas de solenidade e reapropriadas como símbolos de sofrimento, culpa e exposição. Combinadas a metáforas deliberadamente bizarras, como cobras e cavalos dançantes, elas constroem um lirismo abstrato, fragmentado e aberto à interpretação.
No plano sonoro, a produção de Kenneth Blume, conhecido como Kenny Beats, realizada em estreita colaboração com a banda, desempenha papel fundamental na construção desse universo estético. A produção é relativamente limpa, mas evita o polimento excessivo. Ruídos, imperfeições e pequenas asperezas são preservados, reforçando a sensação de urgência e a energia de uma execução próxima do registro ao vivo.
A escolha de colocar bateria e percussão em primeiro plano, frequentemente em volume elevado, confere ao disco um impulso rítmico constante e uma intensidade física marcante. Esse eixo rítmico sustenta as guitarras mais erráticas e as variações vocais de Winter, garantindo coesão mesmo nos momentos de maior fragmentação sonora.
No conjunto, Getting Killed se apresenta como um álbum que equilibra tradição e risco com notável consciência formal. O Geese demonstra domínio de suas referências históricas, mas evita o pastiche, utilizando o passado como matéria-prima para uma linguagem própria, tensa e deliberadamente desconfortável. Trata-se de um disco que não busca gratificação imediata. Ele exige atenção, tolerância ao atrito e disposição para o desequilíbrio. Em troca, oferece uma experiência sonora intensa, instável e profundamente física, que captura com precisão o mal-estar, a exaustão e a inquietação de um presente sem garantias.
