Gamma 3, lançado em fevereiro de 1982 pela Elektra Records, é o terceiro álbum da banda Gamma.
Quando ouvi esse disco pela primeira vez, fiquei surpreso por dois motivos. Primeiro, pela capa, que deve ser uma das coisas mais feias que já vi na vida. Segundo, pela qualidade do álbum. Sinceramente, não esperava encontrar um disco tão bom. Na verdade, estamos falando de um dos melhores álbuns de 1982.
E não é por acaso. O Gamma foi idealizado pelo lendário guitarrista Ronnie Montrose, que também assina a produção do disco. A formação conta ainda com Davey Pattison nos vocais, Mitchell Froom nos teclados, Glenn Letsch no baixo e Denny Carmassi na bateria. Froom substituiu Jim Alcivar nas gravações, embora Alcivar tenha participado da composição da maior parte do material.
Em comparação com o trabalho de sua banda anterior, o Montrose, Ronnie apresenta aqui uma sonoridade muito mais polida, próxima do Arena Rock e do AOR. Os sintetizadores, tão característicos da música dos anos 80, ocupam um espaço enorme no disco, chegando a eclipsar a própria guitarra de Montrose em diversos momentos.
Isso parece ter causado certa estranheza na crítica, que frequentemente apontou a orientação comercial do álbum como um problema. Mais uma vez, temos um exemplo de um preconceito bastante comum entre críticos de Rock: a ideia de que uma sonoridade mais acessível necessariamente representa uma perda de qualidade.
De qualquer forma, nem acho que Gamma 3 seja tão comercial assim. É evidente que o disco i
Cncorpora elementos em alta naquele período, especialmente o AOR e o Arena Rock. Também encontro aqui algumas aproximações com a New Wave. Mas há muito mais acontecendo.
O álbum apresenta características bastante progressivas, com passagens instrumentais longas, arranjos elaborados e momentos pouco preocupados com a estrutura bem pouco convencional.
Além disso, é um disco tecnicamente bem refinado. Um ótimo exemplo é “Mobile Devotion”, com sua excelente disputa de solos entre Montrose e Mitchell Froom.
Gamma 3 flerta abertamente com o Rock Eletrônico, explora os sintetizadores sem economizar e ainda faz um uso bastante criativo dos vocoders. Em alguns momentos, chega a antecipar caminhos que o Rush exploraria ao longo daquela década.
Para mim, é possível enxergar esse álbum como uma pequena obra-prima do proto-Synthwave, ainda que essa classificação seja necessariamente retrospectiva. É curioso encontrar uma combinação tão particular de Hard Rock, Rock Progressivo, AOR e New Wave em um disco lançado em 1982, sobretudo quando os sintetizadores assumem um protagonismo tão grande e a guitarra, apesar de toda a reputação de seu dono, deixa de ser o centro absoluto das atenções.
Em suma, se você gosta dessa articulação entre Hard Rock, New Wave, Rock Progressivo e AOR, Gamma 3 é um disco que merece sua atenção. Gostei tanto que, depois de terminar a audição, a capa já nem me parecia tão horrível assim. Acho que comecei até a achá-la simpática.