Uma das marcas mais fortes da história do Black Sabbath é a sua formação instável. Em vez de seguir fases claramente separadas, a banda parece atravessar momentos, com mudanças frequentes que criam sobreposições difíceis de organizar. As chamadas fases Dio e Tony Martin são exemplos disso, já que não se desenvolvem de forma linear e em alguns períodos chegam a coexistir ou se intercalar de maneiras inesperadas.
A sequência de acontecimentos que antecede Cross Purposes ilustra bem essa lógica de momentos que se cruzam. Quando o Dehumanizer foi lançado em 1992, trazendo de volta Ronnie James Dio nos vocais e Vinny Appice na bateria, parecia que a trajetória de Tony Martin havia encerrado. Muitos acreditavam que a era Dio seria restabelecida, ao menos na formação que consolidou o álbum Mob Rules. No entanto, a aparente estabilidade durou pouco. Após a turnê, Dio e Appice deixaram a banda mais uma vez. Assim, no álbum seguinte, Cross Purposes (1994), Tony Martin retornou ao posto de vocalista e Bobby Rondinelli, ex-baterista do Rainbow, assumiu a bateria.
Nesse mesmo período, Geezer Butler teve um papel igualmente representativo dessa dinâmica fragmentada. Ele havia voltado ao Sabbath junto com Dio para gravar o Dehumanizer, após não participar de nenhum disco desde o excelente Born Again de 1983. Permaneceu durante a gravação de Cross Purposes, embora tenha deixado o grupo novamente ainda em 1994, antes do próximo álbum, Forbidden.
A verdade é que observar os discos e as formações do Black Sabbath é como analisar fotografias isoladas. Cada álbum registra um instante específico, refletindo a permanente instabilidade do grupo. E desde os tempos de Mob Rules, o tecladista Geoff Nicholls foi, curiosamente, mais constante na formação do que muitos músicos mais conhecidos, com exceção óbvia de Tony Iommi, o único integrante realmente permanente.
É nesse contexto de transições e rearranjos que Cross Purposes surge. No conjunto, considero o álbum um bom trabalho, embora não seja exatamente memorável. Seu principal problema não está nas músicas em si, já que todas são boas, com bons riffs, bons solos, uma ótima performance vocal e uma cozinha consistente. O que talvez falte é uma identidade mais marcada, algo que o distinga de maneira clara dentro da discografia da banda. Ele acaba funcionando como uma síntese um tanto difusa de três vertentes: o Sabbath dos anos 70, perceptível em faixas como Virtual Death e Cardinal Sin, o Sabbath da fase Mob Rules, evidente em músicas como Psychophobia e The Hand That Rocks the Cradle, e a estética que caracterizou a própria era Tony Martin, uma mistura melódica de peso e dramaticidade.
No fim das contas, Cross Purposes exemplifica exatamente aquilo que foi observado no início: a história do Black Sabbath não avança por fases rígidas, mas por momentos que se sobrepõem, se interrompem e se rearranjam. O álbum é uma fotografia precisa de um desses instantes, marcado por buscas de identidade e tentativas de continuidade que acabam resultando apenas em mais um fragmento singular dentro de uma trajetória sempre movediça e fragmentada.