Na obra de ficção científica Duna, de Frank Herbert, Arrakis é um planeta desértico e o ponto central do universo conhecido. Sua superfície é quase inteiramente coberta por imensos desertos de areia, interrompidos apenas por raras formações rochosas e cânions. O clima é extremo: temperaturas altíssimas, tempestades de areia devastadoras — as temidas tempestades de Coriolis — e uma escassez quase total de água.

Tentando reproduzir essa aridez abrasadora e hipnótica, nada parece mais apropriado do que um stoner rock psicodélico — e é exatamente isso que a banda canadense Son of Arrakis se propõe a fazer.

Formada em 2019, a banda combina peso e atmosfera em igual medida. Seu som soa denso e meditativo.

O grupo é composto por Vick Trigger (baixo), Mathieu Rcine (bateria), Francis Duchesne (guitarra) e Frédéric Couture (vocais e guitarra).

O primeiro álbum, Volume I, lançado em 2022, rapidamente ganhou destaque na cena stoner e doom, chegando ao primeiro lugar do Doom Chart em julho do mesmo ano.

Com oito faixas, o disco mergulha no universo de Duna, homenageando-o musicalmente.

A própria banda define seu estilo como Melange Rock — uma referência direta à especiaria melange, substância vital que sustenta toda a economia, a política e a espiritualidade do império galáctico de Herbert.

O álbum se inicia com “Shai-Hulud”, uma introdução instrumental que evoca os gigantescos vermes de areia de Arrakis.

Lenta, arrastada e pesada, a faixa cria uma sensação torporosa, funcionando como um prelúdio do que virá a seguir.

Em “Black Mirror”, com influências diretas de Black Sabbath, o foco se volta para os Fremen, os nômades do deserto. O verso “Dark shade blue eyes for thousands of years” alude aos olhos totalmente azuis desses habitantes, resultado da constante exposição à melange.

A faixa “Complete Obliteration” mantém a densidade e o clima psicodélico, evocando a Jihad Butleriana, a guerra santa travada pela humanidade contra as máquinas pensantes — as inteligências artificiais que haviam dominado o homem. O verso “Dissidents of this decadence caused by man’s lethargy” expressa o momento em que a humanidade, entregue à própria inércia, se torna dependente das IAs. O verso “Annihilate the illusion of freewill with power to coerce” sintetiza a crítica de Herbert: a liberdade é apenas uma aparência quando o controle é total. A única resposta possível a essa dominação é a “obliteração completa”.

A partir de “Temple of the Desert”, o álbum assume um tom mais religioso. A canção faz referência à segunda vinda do Salvador e mistura símbolos judaicos, cristãos e islâmicos (principalmente islâmicos) com o imaginário messiânico de Duna: “The second coming of the savior / If only you could read the signs…”. A fé, aqui, é ambígua — libertadora e opressora ao mesmo tempo.

Essa ambiguidade se aprofunda em “Omniscient Messiah”, onde surge o messias que tudo vê, mas nada liberta — claramente inspirado em Paul Atreides, o herói trágico de Duna.

Na obra, Paul ascende como salvador, mas torna-se imperador e catalisador de uma guerra santa que ele próprio tentou evitar. Sua tragédia é ver o futuro e, mesmo assim, ser incapaz de alterá-lo.

A melancolia retorna em “Lonesome Preacher”, que parece retratar o Mahdi, o profeta solitário dos Fremen. A canção reflete a manipulação das crenças messiânicas pela Bene Gesserit, irmandade de mulheres geneticamente aprimoradas que moldam Paul como o messias prometido. Fé, profecia e poder se confundem, e a redenção dá lugar ao destino inevitável.

Em “Abomination”, o foco se desloca para o despertar presciente de Paul. Ele deixa de ser um indivíduo e passa a carregar em si as memórias de todas as gerações anteriores: “Altered ego by the depth of your recollection / Prior to all ancient lives.” Esse acúmulo de consciências o dilacera internamente — ele teme o futuro que enxerga e, ao tentar evitá-lo, o provoca. A figura de Muad’Dib, o messias guerreiro, emerge dessa contradição: a besta que nasce do medo e do fardo do conhecimento.

A última faixa retoma o motivo de “Shai-Hulud”, encerrando o álbum como um ciclo — ascensão, queda e renascimento — numa estrutura quase ritual. Em pouco mais de 30 minutos, o Son of Arrakis condensa o épico de Frank Herbert em riffs pesados e atmosferas místicas. É uma transposição sonora do deserto: repetitiva, meditativa, brutal e espiritual.

Poucas obras musicais conseguiram capturar com tanta fidelidade o espírito de Duna. Talvez apenas “To Tame a Land”, do Iron Maiden, tenha chegado tão perto. É curioso — e um tanto irônico — pensar que Frank Herbert detestava o heavy metal.

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

Piece of Mind

Podcast Recente

Rolar para cima