Undo é um média-metragem japonês de 1994, dirigido e roteirizado por Shunji Iwai, e estrelado por Etsushi Toyokawa, Tomoko Yamaguchi e Tomoro Taguchi.
Trata-se de um romance com toques de simbolismo e drama psicológico.
A filmografia de Shunji Iwai costuma reforçar sugestões oníricas, como bem aponta So Wai Fung em sua dissertação “Toward an Aesthetics of Sensation: A Study of Backlighting in Shunji Iwai’s Films”. Essa atmosfera é acentuada pelo uso característico do backlighting (luz de fundo), que se torna elemento central tanto da iluminação quanto da composição fotográfica.
Aqui, porém, a sugestão não está apenas na estética que escapa às funções convencionais do realismo, mas também no próprio enredo.
A história gira em torno de Moemi (interpretada por Tomoko Yamaguchi), uma jovem que começa a desenvolver um transtorno obsessivo-compulsivo incomum: ela sente uma necessidade incontrolável de amarrar tudo com barbantes. A compulsão se inicia de forma discreta, mas logo cresce a ponto de afetar sua vida cotidiana e seu relacionamento com Yukio (Etsushi Toyokawa), seu namorado, que tenta compreendê-la com a ajuda de seu psicólogo (Tomoro Taguchi).
O comportamento obsessivo atinge seu ápice quando Moemi decide amarrar com barbantes todo o apartamento.
A partir desse ponto, o que antes era apenas sugerido como simbólico se impõe abertamente, assumindo inclusive contornos fetichistas — embora também se intensifique o aspecto dramático.
Nos momentos finais do filme, Yukio, seguindo uma sugestão de seu psicólogo, decide amarrar Moemi. Enquanto a envolve com os fios, ela lhe pede que a aperte cada vez mais, até que ele a fixa completamente imóvel contra a parede.
O público contempla a cena num voyeurismo ao mesmo tempo obsceno e melancólico. Há ali um peso de privacidade, como se estivéssemos testemunhando — ao mesmo tempo — um casal tentando se separar, se conectar e se estimular. Tal como o próprio processo de fazer um nó.
O nó funciona aqui como um símbolo de um paradoxo perfeito: para que ele exista, é necessário dar um laço e tensionar as pontas em direções opostas. Esse tensionamento, em vez de romper, fortalece o laço — a ponto de machucar. E talvez isso traduza com precisão a relação entre os dois personagens.