Reincarnations é um álbum de Charles Mingus lançado em 2024 pela Candid Records.

O disco dá continuidade ao projeto iniciado em 2023 com Incarnations. Assim como seu predecessor, reúne faixas raras e tomadas alternativas gravadas originalmente entre outubro e novembro de 1960 nos estúdios Nola Penthouse, em Nova York.

Essas sessões foram produzidas pelo célebre crítico e produtor de jazz Nat Hentoff e pertencem ao mesmo período extraordinariamente criativo que deu origem a clássicos absolutos da discografia de Mingus, como Charles Mingus Presents Charles Mingus e Newport Rebels.

O repertório é composto por “Reincarnation of a Lovebird (1st Version / Take 4)”, “Melody from the Drums”, “Wrap Your Troubles in Dreams (Take 4)”, “Vassarlean” e “Body and Soul (Take 2)”.

Muitas dessas gravações permaneceram indisponíveis em vinil por décadas ou jamais haviam sido reunidas de forma tão cuidadosa em um lançamento independente.

É interessante observar como o jazz desenvolveu uma verdadeira cultura das chamadas unreleased gems, as “joias perdidas”. Grande parte dos lançamentos do gênero possui um caráter quase arqueológico, voltado à descoberta de gravações esquecidas, versões alternativas ou sessões que permaneceram dispersas em coletâneas obscuras durante décadas.

Diferentemente da música pop ou do rock, em que a versão final de estúdio costuma ser tratada como definitiva, no jazz o valor máximo reside na improvisação e na singularidade do momento. Um take alternativo rejeitado em 1960 porque alguém errou uma nota na introdução pode conter o solo mais brilhante, visceral e inspirado da carreira de um músico.

Por isso, ouvir as tomadas “1”, “2”, “3” ou “4” de uma mesma composição faz todo sentido quando estamos diante de músicos do calibre de Charles Mingus ou John Coltrane.

E os músicos presentes em Reincarnations estão em plena forma.

Vale a pena observar quem participa de cada uma das faixas.

Na faixa de abertura, “Reincarnation of a Lovebird (1st Version / Take 4)”, além de Charles Mingus no contrabaixo, participam Eric Dolphy (flauta e clarinete baixo), Charles McPherson (saxofone alto), Ted Curson (trompete), Lonnie Hillyer (trompete), Nico Bunink (piano) e Dannie Richmond (bateria).

A segunda faixa, “Melody from the Drums”, apresenta um impressionante solo de bateria de nove minutos executado por Dannie Richmond.

Em “Wrap Your Troubles in Dreams (Take 4)”, a terceira faixa, a formação muda para um quarteto de orientação mais tradicional, reunindo veteranos do swing e do bebop: Charles Mingus (contrabaixo), Roy Eldridge (trompete), Tommy Flanagan (piano) e Jo Jones (bateria).

Já em “Vassarlean”, a quarta faixa, encontramos Charles Mingus ao lado de Eric Dolphy, aqui no clarinete baixo, Booker Ervin (saxofone tenor), os trompetistas Ted Curson e Lonnie Hillyer, Nico Bunink ao piano e Dannie Richmond na bateria.

A quinta e última faixa, “Body and Soul”, a mais longa do álbum, reúne Charles Mingus, Eric Dolphy, Roy Eldridge, Jimmy Knepper (trombone) e Jo Jones.

Entre os destaques, sobressaem o desempenho de Dannie Richmond em “Melody from the Drums” e o próprio Charles Mingus, especialmente em seu magnífico solo em “Body and Soul”.

Além das músicas e das performances, o disco também reflete a notável cultura de resgate e preservação de gravações que caracteriza o universo do jazz, fortemente incentivada por produtores, pesquisadores e entusiastas ao longo das décadas.

Podemos citar, além de Nat Hentoff, nomes como Alfred Lion, da Blue Note, e Bob Thiele, da Impulse!, que costumavam manter as fitas gravando durante longos períodos.

Como o mercado de LPs das décadas de 1950 e 1960 limitava a duração dos discos a aproximadamente 40 ou 45 minutos, inúmeras horas de música acabavam armazenadas em arquivos e esquecidas nos acervos das gravadoras.

Décadas mais tarde, esse material passou a ser redescoberto e valorizado, oferecendo aos ouvintes novas perspectivas sobre artistas já consagrados e revelando facetas até então desconhecidas de sessões históricas.

Em suma, Reincarnations, que se insere plenamente nessa tradição de recuperação e reavaliação de registros históricos, é uma excelente audição não apenas para admiradores de Charles Mingus, mas para qualquer pessoa interessada em compreender a riqueza, a espontaneidade e o caráter inesgotável do jazz.

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