Nineteen Seventy Seven é um álbum de jazz fusion do lendário Grupo Um, gravado em 9 de novembro de 1977 e lançado oficialmente apenas em 30 de janeiro de 2026, pelo selo britânico Far Out Recordings.

Para quem não conhece, o Grupo Um é um dos nomes fundamentais da música instrumental brasileira. Formado em meados da década de 1970 pelos irmãos Lelo Nazário (piano e teclados) e Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão), o conjunto surgiu a partir da experiência dos músicos na banda de Hermeto Pascoal, onde também tocavam ao lado de Zeca Assumpção, primeiro baixista do grupo.

A proposta do Grupo Um era construir uma identidade musical própria, reunindo influências do jazz contemporâneo, da experimentação eletroacústica, da música erudita de vanguarda e dos ritmos afro-brasileiros. O resultado era uma música instrumental ousada e livre, marcada pela diversidade de texturas, pela complexidade rítmica e pelo amplo espaço dedicado à improvisação.

Lelo Nazário incorporou às composições e aos arranjos recursos de música eletrônica, como manipulação de sinais e processamento sonoro. A combinação desses elementos com instrumentos acústicos contribuiu para criar uma linguagem própria e bastante singular dentro da música instrumental brasileira.

O Grupo Um também foi protagonista de um momento importante da produção musical independente no Brasil. Ao lado de outros artistas e conjuntos que circulavam pela cena paulistana, o grupo ajudou a demonstrar que era possível produzir e lançar trabalhos de grande sofisticação artística fora das estruturas tradicionais das grandes gravadoras.

Sua trajetória esteve particularmente próxima do circuito do Teatro Lira Paulistana, espaço fundamental para a música independente e experimental de São Paulo no início dos anos 1980. O primeiro álbum oficialmente lançado pelo grupo, Marcha sobre a Cidade (1979), teve seu show de lançamento no verão de 1980, sendo a primeira atração musical a inaugurar o teatro.

Mas a história de Nineteen Seventy Seven é um pouco diferente.

Gravado no estúdio Vice-Versa B, em São Paulo, o álbum chegou a ser apresentado a algumas das principais gravadoras do país. Entretanto, a proposta musical do conjunto estava muito distante dos padrões comerciais da indústria fonográfica brasileira da época. O material não encontrou interessados em viabilizar seu lançamento e acabou permanecendo guardado durante quase cinco décadas no arquivo pessoal de Lelo Nazário.

É importante considerar também o contexto político daquele período. O Brasil ainda vivia sob a ditadura militar, em um ambiente de repressão e censura que dificultava a circulação de manifestações artísticas experimentais. Segundo os próprios músicos, o disco não tinha qualquer perspectiva de lançamento naquele momento. A combinação entre o contexto político e o desinteresse comercial das gravadoras acabou condenando o registro ao esquecimento.

O resgate aconteceu graças ao trabalho de arqueologia musical da Far Out Recordings, selo britânico especializado na recuperação e divulgação de registros históricos da música brasileira. Depois de lançar Starting Point, outro álbum inédito do Grupo Um, gravado em 1975 e recuperado em 2023, a gravadora voltou a trabalhar com o material do conjunto, viabilizando finalmente a publicação da sessão de 1977.

Um detalhe interessante é que as limitações técnicas do estúdio influenciaram diretamente a gravação. Sem possibilidade de realizar overdubs, os músicos registraram as composições tocando juntos, diretamente para a fita magnética. O resultado preserva a interação espontânea entre os integrantes naquela sessão.

A formação que participou da gravação reúne Lelo Nazário (piano elétrico Wurlitzer, piano acústico, gerador de sinais e percussão), Zé Eduardo Nazário (bateria e percussão), Zeca Assumpção (baixo elétrico), Roberto Sion (saxofone soprano e clarinete) e Carlinhos Gonçalves (percussão).

Particularmente, considero vergonhoso para nós, brasileiros, que um trabalho tão importante de recuperação da nossa memória musical tenha precisado da iniciativa de um selo estrangeiro para finalmente acontecer.

Não é um caso isolado. Nossa memória histórica e cultural frequentemente parece receber mais atenção, investimento e reconhecimento fora do país do que dentro dele. Temos uma produção artística riquíssima, mas nem sempre demonstramos a mesma disposição para preservar, documentar e disponibilizar esse patrimônio às próximas gerações.

O lançamento de Nineteen Seventy Seven é, portanto, uma ótima notícia para quem se interessa pela história da música brasileira. Mas também deveria servir como um lembrete de que ainda temos muito trabalho a fazer para reconhecer e preservar a nossa própria história.

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