I Saw the TV Glow, lançado no Brasil como Eu Vi o Brilho da TV, é um filme norte-americano de drama e terror psicológico, lançado em 2024, escrito e dirigido por Jane Schoenbrun e distribuído pela A24.
A história acompanha Owen (Justice Smith), um adolescente suburbano, solitário e reprimido, cuja vida muda quando conhece Maddy (Brigette Lundy-Paine), uma jovem mais velha que lhe apresenta um misterioso programa de televisão sobrenatural chamado The Pink Opaque.
A série acompanha Isabel (Helena Howard) e Tara (Lindsey Jordan), duas adolescentes que vivem em cidades diferentes, mas compartilham uma poderosa conexão psíquica e telepática. Juntas, elas usam essa ligação sobrenatural para enfrentar os chamados “monstros da semana”: criaturas grotescas enviadas pelo grande vilão da trama, Mr. Melancholy (Senhor Melancolia), uma espécie de assustador homem-lua.
O programa se torna uma obsessão e um refúgio para Owen e Maddy, que encontram na ficção uma maneira de escapar de suas realidades monótonas e de seus lares problemáticos. Com o passar do tempo, porém, os limites entre a fantasia televisiva e a própria realidade começam a se desfazer.
O filme é amplamente interpretado como uma alegoria sobre a experiência trans, a repressão da própria identidade e a disforia de gênero. A própria diretora, que é uma mulher trans, já declarou que o roteiro reflete o processo conhecido na comunidade como “egg” (ovo), uma metáfora para o período de repressão e desconhecimento que antecede o reconhecimento da própria identidade de gênero.
Nesse sentido, a narrativa contrapõe o medo de permanecer preso a uma identidade socialmente aceitável ao processo doloroso e assustador de romper a própria casca para viver de acordo com quem realmente se é.
Entre suas principais inspirações estão as séries infantojuvenis de terror dos anos 1990 que Schoenbrun assistia durante a juventude, como Goosebumps, Are You Afraid of the Dark? (Clube do Terror) e, principalmente, Buffy: A Caça-Vampiros.
Jane Schoenbrun parece repetir uma fórmula bastante particular em seus filmes: uma abordagem excessivamente concentrada na metalinguagem, em conceitos acadêmicos e em referências psicanalíticas.
Do ponto de vista estritamente estético, I Saw the TV Glow é deslumbrante. O filme apresenta um uso vibrante de luzes neon, cores saturadas e texturas que remetem às mídias analógicas dos anos 1990. A fotografia é belíssima, especialmente pela maneira como reproduz aquela iluminação trêmula e crepitante das telas de televisão e dos letreiros luminosos.
Fora isso, entretanto, considero o filme extremamente desinteressante.
Não há um único personagem carismático ou minimamente cativante. Os conflitos relacionados à identidade são apresentados por meio de inúmeras camadas de sugestões e sinalizações sutis que, de tão tênues, acabam se tornando difíceis de decifrar. O filme parece um quebra-cabeça projetado para ser compreendido apenas pela própria diretora, deixando o espectador mais alienado do que envolvido.
As atuações também não ajudam. As performances são excessivamente contidas, quase entorpecidas, e os diálogos são conduzidos por uma monotonia vocal que se torna particularmente cansativa ao longo da projeção.
É a prova de que uma boa direção de fotografia e um senso de estilo apurado não são suficientes para fazer um bom filme.
A escolha de direção, que aparentemente busca transmitir a dissociação e a apatia extrema do protagonista diante da realidade, frequentemente ultrapassa o limite e transforma a experiência em algo simplesmente arrastado e exaustivo.
Aliás, até mesmo a estética, que acabei de elogiar, merece algumas ressalvas. Muito estilo pode se tornar mero maneirismo.
O uso insistente dos filtros que simulam fitas VHS, o neon onipresente e os planos longos e contemplativos muitas vezes parecem constituir uma espécie de grife visual. Há quase um fetiche pela estética dos anos 1990, que nem sempre funciona como uma escolha capaz de impulsionar o drama dos personagens.
Quando o cinema se apoia excessivamente em marcas estilísticas sem o suporte de uma narrativa sólida, o resultado costuma ser esse: uma obra que parece vazia, na qual a estética se transforma em uma máscara para a falta de substância e de estofo dramático.
Posso até dar o braço a torcer e considerar que o filme talvez não tenha a intenção de proporcionar entretenimento ou despertar simpatia imediata. Sua proposta pode ser justamente evocar sentimentos de disforia, dissociação e alienação. Nesse caso, apresentar personagens convencionalmente carismáticos poderia comprometer a representação de um mundo cinzento e sufocante.
Também é possível argumentar que as camadas de sugestões não são desnecessárias ou indecifráveis, mas reproduzem com precisão os mecanismos da dissociação. Para quem vive no armário ou sob intensa repressão da própria identidade, os sinais internos podem ser justamente assim: fragmentados, confusos, escondidos atrás de mídias de escape e difíceis de reconhecer.
Ainda assim, simplesmente não consigo gostar do filme, mesmo compreendendo parte de suas motivações e escolhas estéticas e dramáticas.
Para mim, Schoenbrun confunde estilo visual marcante e densidade textual com inteligência e substância narrativa. O resultado são obras plasticamente belas, repletas de monólogos e construções conceituais elaboradas, mas que me parecem emocionalmente estéreis e intelectualmente alienantes.
Não considero os filmes dela inteligentes. Me desculpem.
Em suma, I Saw the TV Glow consolida mais uma vez minha impressão de que Schoenbrun é uma diretora de nicho. E isso, para mim, é um problema.
Acredito que uma obra de arte deve ter a capacidade de se universalizar, mesmo quando parte de experiências particulares, mesmo quando aborda questões explicitamente queer. Não significa apagar essas particularidades ou torná-las palatáveis para todos, mas encontrar nelas algo capaz de estabelecer uma comunicação que ultrapasse os limites da experiência individual.
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