Restless and Wild é o quarto disco do Accept, lançado em 1982, no mesmo ano de The Number of the Beast, do Iron Maiden. Assim como o disco do Maiden, ele representa um ponto de virada na carreira da banda e a consolidação de uma identidade musical que já estava bastante distante do Hard Rock dos anos 1970.
É um disco agressivo, pesado e veloz. E quando digo pesado, não estou falando apenas de uma impressão subjetiva. Para os padrões de 1982, Restless and Wild é realmente um negócio brutal.
O disco está entre os pilares daquilo que, pouco depois, seria chamado de Speed Metal e antecipa uma quantidade impressionante de coisas que apareceriam no Power Metal e no Thrash Metal. Ouvindo hoje, é fácil encontrar nele ecos de Blind Guardian, Helloween, Metallica e Anthrax.
É curioso pensar que tudo isso está aqui em 1982.
Na verdade, ouvindo Restless and Wild e olhando para a produção daquele período, fico com a impressão de que ele pode ser colocado ao lado dos primeiros discos do Venom como um dos trabalhos mais extremos de sua época. Welcome to Hell, de 1981, e Black Metal, de 1982, obviamente levam essa radicalização para outro lugar, mas existe uma espécie de parentesco na maneira como essas bandas estavam empurrando os limites do que poderia ser considerado Heavy Metal.
E o Accept fazia isso sem abandonar completamente as estruturas tradicionais do gênero.
Talvez seja justamente aí que esteja uma das coisas mais interessantes do disco.
O peso de Restless and Wild não combinava muito com o mercado que começava a se desenhar para as grandes bandas de Hard Rock. Ao mesmo tempo em que o Metal ficava mais pesado e extremo, começava a surgir uma estética cada vez mais associada ao glamour, à beleza e ao espetáculo.
Udo Dirkschneider era praticamente o oposto disso.
Seu vocal ardido, rasgado, exagerado e agudo não tinha nada de elegante. Sua aparência grimórica também estava muito distante do padrão dos vocalistas galãs que começavam a dominar a cena de Los Angeles. Udo parecia um sujeito saído de uma fábrica alemã e colocado, por acidente, no meio de uma banda de Heavy Metal.
E isso, para mim, é uma parte importante da identidade do Accept.
Existe uma crueza quase operária no sujeito. Enquanto o Glam Metal caminhava para uma estética cada vez mais produzida, colorida e artificial, Udo parecia representar justamente o contrário: o sujeito estranho, feio, agressivo, sem qualquer preocupação em parecer um astro de rock.
É fácil perceber como essa estética anti-galã encontraria ecos alguns anos depois nos vocalistas de Thrash, Death e Black Metal. Os vocais rasgados e agressivos, a aparência deliberadamente pouco glamourosa e essa recusa em transformar o vocalista em um objeto de desejo fazem parte de uma linhagem que passa por Udo.
Na Europa, o Accept também encontrou um ambiente muito mais receptivo. A explosão da New Wave of British Heavy Metal havia criado um terreno particularmente fértil para aquele tipo de som, e Restless and Wild parecia conversar muito melhor com essa nova geração do Metal do que com o mercado americano que começava a se formar em torno do Hard Rock.
O grande destaque do disco, para mim, está nas guitarras de Wolf Hoffmann.
Hoffmann consegue fazer uma coisa que eu acho particularmente interessante: mistura o peso e a crueza rítmica de AC/DC, Judas Priest e Motörhead com uma influência clássica e neoclássica (possivelmente vinda de Rudolf Schenker do Scorpions).
Hoffmann é conhecido por seu interesse por compositores como Tchaikovsky, Beethoven e Grieg, e dá para perceber isso em algumas escolhas melódicas. Escalas menores harmônicas, progressões que remetem à música clássica e determinadas construções melódicas aparecem no meio daquela parede de guitarras, sem que o disco perca sua brutalidade.
E acho que é justamente essa combinação que torna Restless and Wild tão interessante para mim.
Vemos isso com clareza na última faixa deste disco, Princess of the Dawn.
O disco consegue ser extremamente pesado sem ser simplesmente bruto. Existe técnica, existe melodismo, existe uma preocupação quase erudita com determinadas construções, mas tudo isso está enterrado dentro de uma música que quer, antes de qualquer coisa, soar como uma máquina de guerra.
É um daqueles discos em que dá para ouvir o Heavy Metal tradicional começando a se transformar em outra coisa.
O futuro já estava ali.