PLUR1BUS é, definitivamente, uma série que provou que Vince Gilligan não está condenado a permanecer no universo que construiu em Breaking Bad e Better Call Saul.
A série evidencia, para mim, que o autor é capaz de sustentar uma narrativa inteiramente nova sem recorrer ao peso da familiaridade, ao carisma de personagens já consagrados ou à segurança afetiva de um universo temático já conhecido.
A história se passa em uma versão alternativa de Albuquerque e começa quando um sinal vindo do espaço traz para a Terra um vírus extraterrestre. A infecção faz com que quase toda a humanidade passe a compartilhar uma única “mente coletiva”, permitindo que as pessoas tenham acesso aos pensamentos, às memórias e às habilidades umas das outras.
O vírus provoca uma mudança radical no comportamento das pessoas. À medida que a infecção se espalha, a humanidade passa a viver em um estado permanente de contentamento. A violência, o preconceito e os conflitos desaparecem, não porque tenham sido solucionados, mas porque as pessoas deixam de experimentar as diferenças e os antagonismos que antes as separavam.
O preço dessa harmonia, porém, é o sacrifício da própria individualidade. As pessoas se tornam parte de uma mente coletiva.
Ao se conectar à mente coletiva, cada pessoa perde seus segredos, sua personalidade e, em última instância, a própria capacidade de existir plenamente como indivíduo. A humanidade alcança uma espécie de unidade perfeita, mas o faz ao custo de deixar de ser uma reunião de indivíduos distintos para funcionar como uma única consciência.
Essa ideia de dissolução das fronteiras entre o indivíduo e o todo me parece particularmente próxima de certas “tradições orientais”, nas quais a distinção entre o “eu” e o “outro” pode ser relativizada ou mesmo dissolvida em favor de uma compreensão mais integrada da existência.
Em PLUR1BUS, porém, essa dissolução das fronteiras entre o indivíduo e o todo parece servir justamente para recolocar em questão a complexidade da ideia de indivíduo construída pelo Ocidente, uma ideia que parece ter caído em desuso à medida que o próprio Ocidente passou a se entregar a uma espécie de obsessão autocrítica.
Nesse sentido, PLUR1BUS me parece um manifesto bastante pertinente em defesa da ideia “ocidental” de indivíduo. Não necessariamente do indivíduo como algo perfeito ou desejável em todos os seus aspectos, mas justamente do indivíduo em suas contradições, conflitos, defeitos, preconceitos, contingências, acidentes e, especialmente, diferenças.
A mente coletiva ameaça quatro bens distintos da individualidade: a privacidade, a autonomia, a identidade pessoal e a singularidade.
Talvez essa série encontre um estímulo especial em um momento em que vemos a disputa geopolítica entre Estados Unidos, representando o Ocidente, e China, representando o Oriente, se desenhar também em uma arena cultural.
É muito interessante observar como diferentes públicos reagem à série.
Não quero, porém, dar a entender de forma simplificada que existe uma cisão geográfica do pensamento entre Ocidente e Oriente. Sei que as coisas não são tão simples assim.
A título de exemplo, vale lembrar que esse tipo de crítica já foi gestado dentro do próprio Oriente, em uma obra japonesa muito conhecida: Ghost in the Shell, de Masamune Shirow.
Na obra, quando o “Mestre dos Fantoches” tenta se fundir com a Major Motoko em uma única mente, ele argumenta que a individualidade é uma ilusão, tanto para ela quanto para ele. Segundo sua lógica, tudo no universo se comporta por meio da replicação sucessiva de si mesmo, tal como uma célula que se divide repetidamente até formar o organismo que, ilusoriamente, identificamos como um indivíduo único.
A dinâmica criada por Masamune é apresentada como um ataque cibernético. O “firewall” de Motoko seria justamente sua sólida noção de individualidade, a única coisa que impede, no primeiro momento, o “Mestre dos Fantoches” de se fundir completamente à sua mente e tomá-la por inteiro de imediato. Embora ele tenha conseguido isso no filme de 1995, não foi sem resistência.
Além das metáforas computacionais, há algo de heroico, em um sentido ayn-randiano, em recusar um contentamento garantido para preservar a própria individualidade. O personagem Manousos Oviedo é, aliás, francamente ayn-randiano.
Não acho que precise concordar com todas as premissas do pensamento de Ayn Rand para reconhecer alguma verdade nelas. Há um certo radicalismo corrosivo na ideia de indivíduo absolutizado presente em sua filosofia.
Sabemos que não é simples resolver a questão entre indivíduo e coletivo. Algumas doenças do Ocidente também decorrem de um excesso de individualismo, do isolamento social e do enfraquecimento dos vínculos comunitários. É possível, também, criar uma distopia a partir da ideia radical de indivíduos completamente atomizados.
No entanto, acho importante preservar a ideia de indivíduo até mesmo quando consideramos o paradigma cristão, que, por definição, tende ao coletivo e ao comunitário.
Acho paradoxal pensar que, ao eliminar as barreiras que nos separam uns dos outros, eliminamos também a própria possibilidade do amor e a ideia de empatia. O “ame ao próximo como a ti mesmo” depende necessariamente da existência de um “eu” e de um “tu”. Afinal, não é preciso se colocar no lugar do outro quando você “já é o outro”.
O desejo de pertencimento deve estar harmonizado com o desejo de agência individual.
Voltando ao contexto cultural que mencionei, podemos dizer que há uma outra dimensão política subjacente à série, que reflete bem um ideal americano de não aceitar uma existência em que tudo lhe é oferecido como um direito. Uma existência em que as pessoas poderiam ter aquilo que desejam, na hora que desejam, seja uma xícara de café ou uma bomba atômica.