Uma das atividades que mais gosto de fazer é uma espécie de maratona de filmes por tema ou diretor. Particularmente, tenho buscado listas de filmes que costumam ser esquecidos ou que, pelo menos, eu nunca tenha ouvido falar.

Talvez meu site favorito para esse tipo de atividade seja o Taste of Cinema, pois as listas do portal geralmente fogem do óbvio e apresentam obras pouco usuais ou pouco comentadas.

Foi em uma dessas listas, especificamente uma lista de filmes de terror psicológico esquecidos, que descobri Symptoms, filme britânico lançado em 1974 e dirigido pelo cineasta catalão José Ramón Larraz.

A história acompanha Anne West (Lorna Heilbron), uma jovem que aceita o convite de sua amiga Helen Ramsey (Angela Pleasence) para passar um tempo em sua isolada e imensa mansão de campo na Inglaterra.

À medida que os dias passam, o ambiente bucólico e outonal vai se tornando cada vez mais sufocante. O que inicialmente parece ser apenas uma estadia tranquila em uma casa afastada começa a adquirir contornos perturbadores.

Anne percebe mudanças no comportamento de Helen e, aos poucos, passa a desconfiar de que existe alguma coisa errada naquele lugar.

A atmosfera se torna ainda mais inquietante com a presença de Brady (Peter Vaughan), um rude e desconfiado caseiro local, e com a insinuação de que algo terrível aconteceu com uma antiga hóspede e namorada de Helen (sim, ela é lésbica).

Symptoms não foi, a bem da verdade, um filme completamente desconhecido em sua época. Em 1974, a produção foi selecionada para representar oficialmente o Reino Unido no Festival de Cinema de Cannes, onde integrou a seleção oficial.

Apesar da estreia em Cannes, o filme desapareceu de circulação por décadas, tornando-se uma espécie de lenda cult procurada por colecionadores.

O negativo original acabou sendo recuperado pela iniciativa “Most Wanted”, do British Film Institute (BFI), que lançou uma versão totalmente restaurada em 2016.

Cabe aqui falar brevemente sobre o diretor do filme, José Ramón Larraz.

Cineasta que marcou principalmente as décadas de 1970 e 1980, Larraz tornou-se conhecido por misturar o terror a um forte apelo erótico e subversivo, explorando os limites do exploitation. Sua gramática cinematográfica costuma reunir alguns dos elementos mais característicos do chamado “Eurotrash”: terror erótico, slashers de baixo orçamento, seitas, sexualidade e incursões pelo sobrenatural.

Symptoms, no entanto, ocupa uma posição um pouco distinta dentro de sua filmografia. Ao contrário de trabalhos como Vampyres, voltados para um horror mais explícito e visceral, o filme aposta em um terror psicológico cadenciado, construído lentamente a partir da atmosfera, da sugestão e da ambiguidade. Trata-se de um verdadeiro slow burner, frequentemente comparado a obras como Repulsa ao Sexo (1965), de Roman Polanski, e Imagens (1972), de Robert Altman.

É um filme que não se ancora no “choque imediato”, mas na deterioração lenta da percepção de seus personagens.

A indicação ao Festival de Cannes de 1974 causou grande surpresa tanto na indústria quanto no próprio diretor, que não estava acostumado a ter uma de suas obras percebida como algo “refinado”.

Ao assistir ao filme, algumas coisas me chamaram particularmente a atenção.

A primeira é que, apesar de ser uma obra muito mais contida e refinada, os elementos eróticos típicos de Larraz continuam presentes, ainda que de maneira mais sutil. Há nudez, masturbação feminina e lesbianismo, mas esses elementos parecem funcionar menos como “atrações isoladas”, destinadas a um público interessado exclusivamente no estímulo sexual, e mais como partes coerentes da atmosfera de desejo e repressão que permeia toda a história.

A segunda coisa que me chamou a atenção é que, embora Symptoms não seja um filme sobre vampiros, ele trabalha uma dimensão erótica que remete diretamente ao imaginário do vampirismo.

Existe algo de vampírico na sugestão de uma presença furtiva e, ao mesmo tempo, mórbida que surge à noite em seu quarto, enquanto você está na cama, provocando uma mistura desconfortável de pavor e desejo. Essa sensação aparece com especial força na experiência de Helen.

Há também uma dimensão espectral do desejo que atravessa todo o filme. Helen percorre a mansão de maneira quase fantasmagórica, sempre silenciosa, observando Anne à distância, como se estivesse constantemente à espreita.

Sua mente projeta a antiga namorada, que parece continuar assombrando aquela casa. Ela surge pelos cômodos, aparece nos reflexos dos espelhos e nas janelas e chega até a cama de Helen durante a noite. É como se o desejo, o ciúme e o trauma de Helen tivessem adquirido um corpo e passado a habitar a própria mansão.

A mansão, por sua vez, deixa de ser apenas o cenário da história e passa a funcionar quase como um organismo psíquico. Os quartos, os corredores, os sons que vêm do sótão e os espaços vazios parecem extensões dos pensamentos intrusivos, dos medos e dos desejos reprimidos de Helen.

Em Symptoms, o erotismo parece ganhar força justamente por meio de uma mistura de repressão, culpa, vergonha, frustração e ciúme.

O desejo não declarado de Helen por Anne, misturado ao trauma e ao ciúme doentio provocado pela antiga hóspede, que aparentemente mantinha um relacionamento com o caseiro, cria uma atmosfera em que sexualidade e ódio deixam de ser sentimentos separados. Eles passam a alimentar um ao outro e, gradualmente, tornam-se a própria via para o colapso mental de Helen.

A terceira coisa que me chamou a atenção foi a maneira como Larraz subverte nossas expectativas em torno dos personagens Helen e Brady.

Helen se apresenta como uma mulher frágil e vulnerável. Brady, por outro lado, é um homem rude, de olhar agressivo e intimidador, que ronda a mansão, observa tudo e parece saber muito mais do que deveria.

No terror daquela época, o homem rude do campo, voyeurista, agressivo e socialmente deslocado era quase sempre apresentado como o assassino ou, no mínimo, como a ameaça física imediata às mulheres vulneráveis.

Larraz alimenta essa expectativa de maneira bastante eficaz. As aparições repentinas de Brady, seus olhares invasivos e seu comportamento hostil fazem com que o público adote o ponto de vista de Anne,  que o teme.

Assim como ela, começamos a enxergá-lo como o perigo real daquela casa.

Mas o filme está interessado justamente em nos fazer olhar para o lugar errado.

Brady é, no final das contas, apenas um homem bruto que sabe demais e que, no fundo, também está tentando lidar com o mistério daquela casa à sua própria maneira.

Enquanto Brady concentra todos os holofotes do perigo, Helen se camufla dentro de sua própria fragilidade. Achei isso fantástico!

Com sua figura esguia, voz mansa e olhos grandes, que expressam uma carência quase infantil, ela desarma tanto Anne quanto o espectador. É fácil sentir pena de seu isolamento, de sua solidão e da aparente fragilidade daquela mulher que parece ter sido abandonada pelo mundo.

E é justamente aí que Larraz começa a construir sua armadilha.

A ambiguidade desses dois personagens é muito bem sustentada porque o filme nunca precisa transformar Helen em uma pessoa completamente diferente. Ela simplesmente vai revelando, pouco a pouco, aquilo que estava escondido por trás daquela aparência vulnerável.

Helen vai se tornando assustadora. E, eventualmente, macabra.

Quando finalmente percebemos o que está acontecendo, aquela figura frágil já se revelou como a psicopata possessiva que, de certa forma, sempre esteve ali.

A subversão funciona tão bem porque Larraz desloca o perigo do exterior para o interior.

O horror em Symptoms não vem do “homem mau que invade a casa de fora”, representado por Brady. Ele vem de quem já está dentro dela. Vem da pessoa que te oferece chá, conversa com você, conhece seus hábitos e divide o mesmo espaço doméstico.

Vem de Helen.

Seu olhar deixa de ser o de uma mulher desamparada e passa a ser o de uma predadora silenciosa.

Em suma, Symptoms é uma competente produção de terror psicológico que sabe usar muito bem as pistas falsas e a subversão de expectativas.

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