Antes de falar de House of Mirrors, é interessante observar um fenômeno recorrente na cena do tal “rock retrô”: a dificuldade de encontrar uma identidade sem recorrer ao revisionismo.

Nas últimas décadas, muitas bandas passaram a revisitar uma “estética setentista”, mas poucas bandas, na minha opinião, conseguiram transformar o repertório dessa década em uma linguagem própria. Em muitos casos, o resultado soa como um exercício de nostalgia banal.

Há um grande desafio em dialogar com uma tradição sem se tornar prisioneiro dela.

É nesse contexto que House of Mirrors, sétimo álbum da banda americana All Them Witches, lançado em maio de 2026, se diferencia.

Após um hiato de seis anos desde Nothing as the Ideal (2020), o grupo retorna com um trabalho que parece compreender esse dilema e fazer dele sua principal qualidade.

Este foi meu primeiro contato com a banda, o que permitiu uma experiência relativamente livre de expectativas ou comparações com sua discografia anterior.

Musicalmente, o álbum percorre um território amplo. Blues, Hard Rock setentista, Southern Rock, Stoner Rock, Desert Rock, Space Rock, Rock Progressivo, Rock Psicodélico e Doom Metal coexistem ao longo das faixas. Entretanto, a impressão que permanece não é a de uma “colagem de estilos”, mas a de um conjunto orgânico.

O All Them Witches não parece interessado em provar que domina diferentes linguagens; prefere utilizá-las como ferramentas expressivas, escolhendo cada uma conforme a atmosfera que deseja construir.

As referências são evidentes, mas nunca excessivamente literais. Em momentos como “Hold Up, Say What” e “Angel on the Wayside”, a banda evoca a energia e o groove do Led Zeppelin. Em outros momentos, introduz a densidade sombria de um Black Sabbath, apenas para dissolvê-la em passagens contemplativas que remetem tanto ao Pink Floyd quanto ao Porcupine Tree.

Isso se deve a uma orientação eclética, resultado de influências diversas da banda. Faixas como “The Welterweight” e “Saturn Song” exemplificam bem essa diversidade, ora com riffs cortantes, ora com arranjos acústicos, ora com passagens melancólicas e atmosféricas.

Essa dinâmica se manifesta especialmente na construção instrumental. A base rítmica privilegia andamentos lentos e hipnóticos, típicos do Stoner e do Doom, mas evita cair na repetição mecânica. A guitarra trabalha com timbres levemente granulados e riffs incisivos, enquanto a cozinha mantém uma pulsação firme.

Sobre essa estrutura pesada, Allan Van Cleve acrescenta discretamente teclados e violino, instrumentos que raramente assumem protagonismo, mas que ampliam a dimensão espacial das composições. Em vez de competir com as guitarras, esses elementos ocupam os vazios, criando profundidade e enriquecendo a textura sonora.

Liricamente, House of Mirrors permanece relativamente fiel ao imaginário clássico do rock. Relacionamentos, sexo, drogas, excessos e desgaste emocional aparecem como temas recorrentes. Não há exatamente uma reinvenção temática, mas também não parece haver essa pretensão. O foco do álbum está menos na originalidade de suas narrativas e mais na atmosfera construída em torno delas. As letras funcionam como parte de um estado de espírito, complementando uma sonoridade que constantemente oscila entre a introspecção melancólica e a explosão de energia.

Talvez seja justamente essa alternância o aspecto mais interessante do disco. O All Them Witches compreende que o peso só produz impacto quando encontra contraste. Assim, momentos acústicos e contemplativos convivem naturalmente com explosões de distorção, criando uma dinâmica que impede o álbum de se tornar monótono. Essa preocupação com a variação faz com que a experiência de audição permaneça envolvente do início ao fim, mesmo em faixas mais longas e de desenvolvimento gradual.

House of Mirrors talvez não reinvente o rock nem proponha uma ruptura estética significativa. Sua maior virtude está em reconhecer a tradição como um ponto de partida, e não como um limite. Em vez de soar como uma homenagem permanente aos gigantes dos anos 1970, o All Them Witches absorve essas influências e as reorganiza dentro de uma linguagem contemporânea, equilibrando técnica, atmosfera e personalidade. Para quem, como eu, chega à banda por este álbum, a impressão é a de encontrar um grupo que entende profundamente a história do gênero, mas que sabe utilizá-la para construir algo vivo, convincente e, acima de tudo, musicalmente cativante.

Clique aqui para ouvir.

 

Gostou do conteúdo?

Ajude o Taverna do Lugar Nenhum com qualquer valor.

Newsletter

Recomendado

Podcast Recente

Rolar para cima