Acabei de assistir a The Hidden (ou O Escondido), um filme lançado em 1987 que mistura ação, horror, buddy cop e ficção científica.

Várias coisas me chamaram a atenção nesse filme.

Primeiro, ele é dirigido por Jack Sholder, conhecido por fazer A Hora do Pesadelo 2, um filme que traz, de forma bastante inteligente (na minha opinião), elementos de discussões subliminares que vão além da própria narrativa e que não convém esmiuçar aqui. Mas, para matar a curiosidade de vocês, A Hora do Pesadelo 2 é um filme sobre homossexualidade, algo assumido pelos próprios realizadores.

Em The Hidden, Jack Sholder parece fazer o mesmo, e isso me parece evidente na história.

A trama acompanha uma onda de crimes violentos e bizarros em Los Angeles, cometidos por cidadãos comuns que antes eram considerados exemplares.

O detetive Tom Beck (Michael Nouri) é designado para investigar o caso e recebe a ajuda, inicialmente indesejada, de Lloyd Gallagher (Kyle MacLachlan), um excêntrico e misterioso agente especial do FBI.

Beck logo descobre o segredo que Gallagher já conhece: os crimes são cometidos por um parasita alienígena. A criatura invade o corpo das pessoas pela boca, assume o controle total do hospedeiro e o abandona quando o corpo sofre danos fatais.

Sim, temos Kyle MacLachlan no papel de um agente do FBI. Para quem acabou de assistir a todos os episódios de Twin Peaks, é quase inevitável comparar o personagem deste filme com o agente Cooper. Os trejeitos são muito parecidos. O agente Gallagher, tal como o agente Dale Cooper em Twin Peaks, tem uma interpretação que sugere que ele está sempre “um passo fora do ritmo”. Os dois personagens parecem excessivamente metódicos, formais e se comportam como se estivessem “fora deste mundo”.

Coincidências à parte, a história é muito interessante. Podemos, sim, fazer a conexão óbvia entre esse filme e Invasion of the Body Snatchers (Invasores de Corpos, de 1978), mas gostaria de acrescentar que The Hidden é ainda mais surpreendente por antecipar, ao menos parcialmente, uma ideia que seria explorada em Falling Down (Um Dia de Fúria, de 1993): a noção de pessoas comuns que encontram nos excessos e nos crimes uma válvula de escape para vidas monótonas, ordenadas e sem graça.

Obviamente, Jack Sholder utiliza o alienígena para metaforizar “a sombra”, da mesma forma que utilizou Freddy Krueger para metaforizar os desejos ocultos e monstruosos do protagonista de A Hora do Pesadelo 2.

É interessante notar que o alienígena aqui é hedonista, viciado em carros velozes, apaixonado por rock pesado e armas de fogo. Há um forte ímpeto dionisíaco de violência e vitalidade. Os alienígenas parecem sempre escolher cidadãos exemplares, sem antecedentes criminais, para transformá-los em agentes do caos absoluto.

A primeira cena, uma perseguição frenética e alucinante, possui um desfecho quase poético. Um homem, após roubar um banco e dirigir em alta velocidade uma Ferrari que também havia roubado, lança o carro contra os policiais enquanto é alvejado por tiros ao som de heavy metal. É como se aqueles poucos segundos de loucura tivessem valido mais do que toda a sua vida até então.

Enquanto em Invasion of the Body Snatchers, produzido em pleno contexto da Guerra Fria, os alienígenas podem ser interpretados como metáforas para a infiltração ideológica comunista, em The Hidden eles atuam como uma força de libertação existencial niilista. O parasita arranca a persona social e dá vazão ao id reprimido.

No entanto, essa libertação catártica não é, de fato, uma liberdade, mas uma catarse destrutiva. O alienígena pilota aqueles corpos como carros de corrida descartáveis. Ele extrai o máximo de prazer e adrenalina até que o motor, o corpo humano, exploda ou seja metralhado. A libertação se confunde com a aniquilação completa da individualidade da vítima.

Assim como A Hora do Pesadelo 2, este é um filme muito mais inteligente do que parece, mesmo sendo uma obra que se ancora, na maior parte do tempo, em tiroteios e ação frenética.

The Hidden combina perfeitamente questões existenciais com o submundo urbano sombrio de Los Angeles e a estética vibrante do final dos anos 1980.

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