Digital Trip: Kaze no Tani no Naushika (Synthesizer Fantasy) é um álbum conceitual de música eletrônica lançado em 1984, dedicado a reinterpretar a trilha sonora do lendário filme Nausicaä do Vale do Vento por meio da linguagem dos sintetizadores.

A obra foi arranjada e executada pela pianista e tecladista japonesa Junko Miyagi e integra a famosa série Digital Trip, produzida pela gravadora Nippon Columbia.

O projeto tinha como proposta transformar trilhas sonoras de animes e tokusatsus populares em arranjos de synth-pop, ambient e música eletrônica experimental, explorando os recursos dos sintetizadores mais avançados disponíveis naquele momento.

Com o passar das décadas, os discos da série tornaram-se peças cultuadas por colecionadores e apreciadores de synthwave e cultura retro japonesa, especialmente em suas prensagens originais em vinil e fita cassete.

O que mais me chamou a atenção nesta releitura foi a maneira como ela revela aspectos latentes da obra de Hayao Miyazaki que a trilha original de Joe Hisaishi, por sua natureza orquestral, apenas sugeria.

Se a composição de Hisaishi, que é maravilhosa, enfatiza a dimensão lírica, humanista e contemplativa de Nausicaä, a interpretação de Junko Miyagi parece deslocar o foco para os elementos mais estranhos, enigmáticos e alienígenas daquele universo.

O resultado é uma paisagem sonora que amplia a sensação de estar diante de um mundo pós-apocalíptico cuja lógica já não pertence inteiramente à experiência humana.

Pra mim, essa transformação está profundamente ligada às propriedades estéticas do próprio sintetizador. Instrumentos acústicos produzem sons condicionados pelas limitações físicas dos materiais que os constituem. Cordas vibram, colunas de ar ressoam e membranas entram em oscilação segundo regras relativamente familiares à nossa percepção. O sintetizador, por outro lado, permite a criação de timbres que escapam dessas referências. Por meio da modulação de frequência, da manipulação de filtros e da construção artificial de harmônicos, surgem sons que evocam matérias ambíguas e estados intermediários da natureza. Em certos momentos, eles lembram vidro fragmentando-se; em outros, líquidos em ebulição ou massas gasosas em constante mutação.

Essa qualidade tímbrica faz com que os sintetizadores pareçam especialmente adequados ao universo visual de Nausicaä.

Pensemos, por exemplo, na Floresta Tóxica, chamada de Fukai (“Mar da Corrupção”) no original japonês. Ela constitui o elemento central da paisagem de Nausicaä do Vale do Vento e paira sobre aquele mundo como uma presença simultaneamente fascinante e ameaçadora. Esse gigantesco ecossistema surgiu após os Sete Dias de Fogo, uma guerra apocalíptica que extinguiu a civilização industrial humana cerca de mil anos antes do início da narrativa. Desde então, a floresta continua a se expandir, transformando a superfície do planeta em algo cada vez mais estranho aos parâmetros da experiência humana.

A Floresta Tóxica é um ecossistema que desafia classificações convencionais. Ela é simultaneamente bela e ameaçadora, orgânica e alienígena, familiar e incompreensível.

Os sons criados por Junko Miyagi dialogam diretamente com essa ambiguidade. Em vez de simplesmente ilustrar os cenários do filme, eles parecem compartilhar da mesma lógica ontológica daqueles ambientes, como se fossem manifestações sonoras da própria floresta.

O mesmo pode ser dito dos Ohmu, criaturas massivas que parecem trilobitas com múltiplos olhos e que vivem nessa floresta. Se a floresta ou seus habitantes são atacados por humanos, os Ohmu entram em uma fúria cega (seus olhos mudam de azul para vermelho) e marcham em ondas esmagadoras que destroem tudo o que encontram pela frente.

Essas criaturas gigantescas ocupam um espaço singular dentro da imaginação de Miyazaki.

Embora sejam organismos vivos, sua aparência e comportamento evocam algo que sublimam categorias biológicas convencionais. Existe neles uma dimensão quase cósmica, como se fossem entidades pertencentes a uma ordem natural mais ampla e mais antiga do que a humanidade.

Os timbres sintéticos empregados por Junko Miyagi capturam essa sensação de alteridade com notável eficácia, revelando o aspecto profundamente inumano que permeia aquele universo.

Ainda assim, a trilha preserva sua beleza. Trata-se da mesma beleza inquietante que emana da Floresta Tóxica e das criaturas que a habitam, uma beleza que não surge apesar da estranheza, mas precisamente por causa dela.

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