Assistir a Happy Together, de Wong Kar-wai, foi para mim uma experiência ambígua: gostei e achei um pouco tedioso.
Trata-se de um filme que, à primeira vista, se apresenta como um drama romântico relativamente simples: dois homens, Ho Po-wing (Leslie Cheung) e Lai Yiu-fai (Tony Leung Chiu-wai), deixam Hong Kong rumo à Argentina na tentativa quase ingênua de “recomeçar”. No entanto, esse deslocamento rapidamente revela que essa não é uma fuga que traz redenção, mas um exílio que intensifica tudo aquilo que já estava em ruínas.
Bem, vamos falar um pouco do visual do filme.
O que mais me chamou atenção foi como Wong Kar-wai, ao lado do diretor de fotografia Christopher Doyle, constrói uma Buenos Aires que não pertence exatamente à Argentina, mas sim uma espécie de extensão da subjetividade do diretor.
Buenos Aires é filmada como se fosse uma Hong Kong: um espaço igualmente composto por interiores apertados, bares esfumaçados e quartos provisórios, onde a sensação de confinamento se sobrepõe à ideia de cidade aberta.
A cidade perde sua identidade concreta e passa a existir dentro da gramática visual do autor.
Esse gesto poderia facilmente resvalar na autoindulgência, mas me parece operar em outra chave. Ao desterritorializar o espaço, Kar-wai universaliza o sentimento.
Pouco importa onde estamos: o que resta é apenas a experiência do desenraizamento, do desejo que não encontra repouso, da intimidade que se transforma em confinamento.
A geografia se dobra à emoção.
Sobre a trama, a relação entre Po-wing e Yiu-fai é construída como um ciclo incessante de ruptura e reconciliação. Há algo de deliberadamente “pastoso” nessa estrutura, uma recusa em oferecer progressão dramática no sentido tradicional.
Em certo momento, confesso que esse movimento repetitivo de brigas e reconciliações me cansou. Senti que o filme insistia em permanecer no mesmo lugar emocional por tempo demais.
Mas, ao mesmo tempo, entendo que essa repetição é o próprio núcleo da obra. Kar-wai parece interessado em capturar aquele estágio específico de um relacionamento tóxico em que nada avança: quando duas pessoas já não conseguem viver juntas, mas tampouco conseguem se separar.
É um estado de suspensão, quase uma prisão afetiva, e o filme se organiza inteiramente em torno dessa estagnação.
O problema, ao menos para mim, está na dificuldade de estabelecer qualquer vínculo afetivo com os personagens. Po-wing surge como manipulador, impulsivo, quase autodestrutivo. Yiu-fai, por sua vez, carrega um ressentimento constante que o torna igualmente opaco.
Kar-wai não parece interessado em suavizar essas arestas, e isso é coerente com sua proposta estética. Ainda assim, a (quase) ausência de momentos genuínos de ternura torna a experiência mais árida do que poderia ser.
Em muitos romances cinematográficos, mesmo os mais trágicos, há lampejos de doçura que justificam, ainda que minimamente, a insistência do vínculo. Aqui, esses momentos são raros (embora significativos) e, quando surgem, parecem já contaminados pela inevitabilidade da próxima ruptura.
Sem essa ancoragem emocional, o filme deixa de ser um convite à imersão e se transforma em um exercício de observação, um exercício que, como eu disse, me pareceu exaustivo várias vezes.
De qualquer forma, não posso considerar este um mau filme. Muito pelo contrário. É um filme maduro que rejeita qualquer idealização.
Saio do filme com a sensação de ter assistido a algo profundamente coerente com sua própria proposta, ainda que nem sempre prazeroso de acompanhar.
Aparentemente, Wong Kar-wai não quer que eu ame seus personagens. Ele quer que eu os observe, quase como quem encara um fenômeno inevitável. E talvez seja isso que torna Happy Together tão singular: sua capacidade de transformar o tédio momentâneo em parte integrante da experiência, como se o próprio espectador fosse arrastado para dentro daquele ciclo sem saída.