Há discos que nos conquistam imediatamente. Bastam poucos minutos para que um refrão memorável, uma produção exuberante ou uma sequência de grandes canções nos convença de que estamos diante de algo especial. Outros, porém, seguem um caminho completamente diferente. Não tentam impressionar, não levantam a voz e tampouco disputam nossa atenção a qualquer custo. Permanecem ali, discretos, esperando que o ouvinte esteja disposto a encontrá-los.

Singin’ to an Empty Chair, sexto álbum de estúdio dos Ratboys, pertence exatamente a essa segunda categoria.

Quando o ouvi pela primeira vez, em fevereiro deste ano, gostei do disco, mas confesso que não entendi o entusiasmo quase unânime da crítica especializada. Parecia apenas mais um bom trabalho de indie rock com influências de alt-country e Americana. Bem escrito, bem produzido, agradável de ouvir, mas longe de figurar entre os melhores lançamentos do ano.

Foi preciso uma segunda audição, muito mais concentrada, para perceber o quanto essa impressão inicial era limitada.

Esse disco nasce de um momento particularmente íntimo da compositora e vocalista Julia Steiner. Depois de iniciar a psicoterapia, Steiner passou a escrever canções profundamente atravessadas pelo processo de autoconhecimento, e isso está explícito desde o próprio título do disco. Singin’ to an Empty Chair faz referência direta à técnica da “cadeira vazia”, exercício terapêutico no qual o paciente encena diálogos com pessoas ausentes ou conflitos ainda não resolvidos.

Essa ideia atravessa praticamente todo o álbum. As canções falam de vulnerabilidade, reconciliação, distanciamento e crescimento pessoal, mas sem recorrer ao sentimentalismo exagerado. Há uma honestidade muito desarmada na forma como Julia canta, como se estivesse menos interessada em dramatizar suas experiências e mais preocupada em compreendê-las.

Essa postura também ajuda a entender uma característica que sempre esteve presente nos discos dos Ratboys. A banda nunca foi particularmente interessada em experimentalismos gratuitos ou em construir muralhas de ruído. Sua música existe para servir às narrativas. Os vocais de Julia são claros, expressivos e extremamente comunicativos. Tudo parece organizado para que a emoção da letra encontre espaço para respirar.

Mas isso não significa simplicidade.

Pelo contrário. O que impressiona em Singin’ to an Empty Chair é justamente a quantidade de pequenos detalhes escondidos sob uma superfície aparentemente acessível.

A abertura, “Open Up”, sintetiza muito bem essa proposta. A voz limpa e acolhedora de Julia estabelece uma atmosfera de intimidade quase doméstica, perfeitamente compatível com uma letra sobre o esforço de finalmente se abrir durante a terapia. Enquanto isso, um órgão Hammond sustenta discretamente toda a harmonia, criando uma sensação de calor permanente. O elemento realmente fascinante, porém, está nas intervenções de guitarra de David Sagan. Em vez de acompanhar a delicadeza da canção, ele introduz explosões ocasionais de distorção que rasgam a tranquilidade da música. É difícil não interpretar essas entradas como uma representação sonora dos conflitos internos que a letra descreve. A guitarra funciona quase como uma manifestação da ansiedade, da resistência e das barreiras emocionais que a protagonista tenta atravessar.

Na sequência, “Know You Then” muda completamente de atmosfera. A faixa possui uma leveza adolescente, lembrando as trilhas sonoras daquelas comédias românticas norte-americanas dos anos 1990, com melodias luminosas e uma energia juvenil bastante contagiante.

É justamente essa capacidade de alternar estados emocionais sem romper a unidade do álbum que faz os Ratboys parecerem tão seguros de sua própria identidade.

O ponto ato da primeira parte do disco, entretanto, fica com “Light Night Mountains All That”. A princípio, chama atenção o riff acelerado e a execução impecável de toda a banda. David Sagan entrega um dos trabalhos de guitarra mais inspirados do disco, Marcus Nuccio conduz a bateria com enorme precisão e Sean Neumann sustenta uma linha de baixo firme e pulsante. Mas, novamente, são as camadas menos evidentes que fazem diferença. Existe uma base rítmica quase hipnótica que flerta discretamente com o krautrock, enquanto diversos pequenos arranjos aparecem e desaparecem sem jamais chamar atenção para si. É um tipo de riqueza que dificilmente se revela numa audição distraída.

A faixa seguinte continua explorando essa ideia. Embora a estrutura lembre um pop punk bastante juvenil, a banda introduz discretos elementos experimentais que impedem a música de se tornar previsível. Talvez seja essa uma das maiores qualidades dos Ratboys: praticar um experimentalismo extremamente controlado. As referências aparecem, mas nunca comprometem a comunicação das canções.

Quando chega “Penny in the Lake”, o disco mergulha definitivamente no alt-country. Mais uma vez, David Sagan demonstra um enorme senso de medida. Em vez de transformar a guitarra em protagonista, suas intervenções funcionam como uma segunda voz, dialogando constantemente com Julia Steiner. O uso do slide, aliado aos timbres limpos e levemente chorosos, confere à música aquele sotaque melancólico típico do gênero. Soma-se a isso uma melodia lindíssima e um refrão irresistível, daqueles que parecem familiares desde a primeira vez que aparecem.

“Strange Love” e “The World, So Madly” caminham por um território mais tradicional do country-folk e do country rock. Musicalmente, talvez seja o trecho que menos me envolva. Não porque as músicas sejam fracas, muito pelo contrário. São excelentes composições dentro da proposta que abraçam. Apenas representam um momento em que o disco parece se acomodar um pouco mais em estruturas convencionais.

Curiosamente, essa aparente estabilidade serve como preparação para um dos momentos mais interessantes do álbum.

“Just Want You To Know The Truth” começa exatamente como outra delicada canção folk. Tudo parece seguir um caminho bastante previsível até que, nos minutos finais, David Sagan praticamente dissolve a estrutura pop da música. Seu solo cresce lentamente, as guitarras se alongam, acumulam microfonias e transformam uma composição aparentemente simples numa experiência quase espacial. É um daqueles finais que reorganizam completamente nossa percepção da faixa.

Depois disso, “What’s Right” recupera parte da energia mais roqueira das primeiras músicas. É como se a sequência do álbum encontrasse um ponto de equilíbrio entre os impulsos mais ácidos do início e a doçura folk da segunda metade. A ordem das faixas parece cuidadosamente pensada para produzir essa sensação de convergência.

Os minutos finais são mais contemplativos. “Burn It Down” desacelera novamente, enquanto “At Peace in the Hundred Acre Wood” encerra o percurso com um country pop luminoso, simples e acolhedor. Depois de um álbum inteiro lidando com conflitos internos, encerrá-lo sob uma atmosfera de serenidade parece uma escolha absolutamente coerente.

Foi somente depois dessa segunda escuta que compreendi o verdadeiro mérito de Singin’ to an Empty Chair. O disco nunca pretende impressionar através do virtuosismo ostensivo, de grandes reviravoltas ou de experimentações radicais. Sua sofisticação está escondida nos arranjos, na maneira como cada instrumento ocupa seu espaço, no diálogo constante entre a guitarra de David Sagan e a voz de Julia Steiner e na delicadeza com que as emoções são construídas ao longo das músicas.

É um álbum que confia profundamente na inteligência e na paciência de quem o escuta.

Vivemos uma época em que consumimos música cada vez mais rápido. Pulamos faixas, ouvimos discos enquanto fazemos outras tarefas e frequentemente decidimos se um álbum é bom ou ruim antes mesmo de terminá-lo. Nesse contexto, obras como Singin’ to an Empty Chair acabam correndo um risco enorme: o de serem descartadas justamente porque recusam oferecer gratificação imediata.

Talvez por isso minha própria relação com este disco tenha mudado tanto. Não foi o álbum que se transformou entre a primeira e a segunda audição. Fui eu quem finalmente aprendeu a escutá-lo.

E talvez essa seja a maior lição que ele deixa. Algumas obras não pedem apenas nossos ouvidos. Pedem nosso tempo, nossa atenção e nossa disposição para permanecer nelas um pouco mais do que o habitual. Em troca, revelam uma riqueza que dificilmente sobreviveria ao ritmo apressado com que consumimos arte hoje.

Os grandes discos nem sempre nos pegam pelo braço na primeira audição. Às vezes, eles apenas se sentam ao nosso lado em silêncio, esperando que, em algum momento, estejamos prontos para realmente ouvi-los.

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