Lançado em 1º de outubro de 1975 (e gravado em 1974), Changes One ocupa um lugar especial na discografia de Charles Mingus.

Muitos o consideram o ápice criativo de seu último quinteto, formado por Charles Mingus (baixo e direção musical), Don Pullen (piano), George Adams (saxofone tenor), Jack Walrath (trompete) e Dannie Richmond (bateria).

Não é por menos, o entrosamento entre esses músicos é extraordinário. Cada um preserva uma personalidade muito definida (e distinta), mas todos convergem para uma linguagem comum, onde Hard Bop, Blues e Free Jazz coexistem sem que um elemento anule o outro.

A liberdade do improviso do Free Jazz e a experimentação do Hard Bop encontra a estrutura sólida da regência de Mingus, capaz de sustentar confortavelmente todas as ideias.

A abertura com Remember Rockefeller at Attica já vemos isso. Don Pullen conduz o tema com um piano alternando passagens harmônicas refinadas e explosões rítmicas violentas. Mingus, por sua vez, assume também um protagonismo, com seu solo de baixo encorpado; cheio de swing e caráter percussivo.

Podemos dizer que o ponto culminante do álbum, entretanto, é Sue’s Changes.

A suíte de aproximadamente dezessete minutos figura entre as obras mais ambiciosas da fase final de Mingus e concentra boa parte das ideias estéticas que definem Changes One.

A quantidade de camadas presentes na composição, assim como a forma como elas dialogam entre si, justificam uma análise mais aprofundada.

Don Pullen, mais uma vez, ocupa uma posição central nessa construção. Seu piano transita com absoluta naturalidade entre extremos. Em um instante, desenvolve melodias delicadas, de lirismo quase romântico; no seguinte, abandona qualquer convenção e utiliza as palmas das mãos e até os cotovelos para produzir densos clusters, convertendo o instrumento em uma máquina de ritmo e textura.

George Adams estabelece com Pullen um diálogo permanente. Seu saxofone tenor também percorre um amplo arco expressivo, passando de frases elegantes e melódicas a guinchos viscerais.

Além das excelentes performances individuais, a suíte impressiona também pela quantidade de temas, mudanças de andamento e transformações de textura. À primeira audição, essa sucessão de ideias pode sugerir um certo caos. Com o tempo, porém, percebe-se que tudo está cuidadosamente articulado. Existe uma lógica subterrânea organizando cada transição, como se o improviso fosse discretamente conduzido por uma arquitetura invisível.

Essa impressão se torna ainda mais interessante quando se considera a origem da obra. A composição procura retratar as oscilações emocionais da relação entre Charles Mingus e sua esposa, Sue Mingus. As mudanças bruscas de andamento deixam de ser apenas um recurso formal e passam a reproduzir o funcionamento da própria experiência afetiva de ambos. A serenidade cede lugar à irritação; a irritação explode em conflito; o conflito, pouco a pouco, encontra algum equilíbrio. As transições funcionam como gatilhos emocionais, conferindo à música uma lógica narrativa que dificilmente seria alcançada por uma estrutura convencional.

É justamente essa capacidade de organizar o imprevisível que torna Sue’s Changes uma composição excepcional. Mingus demonstra que improvisação e forma não são princípios opostos. A liberdade existe porque há uma estrutura suficientemente sólida para absorver o inesperado sem perder sua identidade. O aparente descontrole nunca deixa de obedecer a uma inteligência composicional extremamente refinada.

Depois dessa longa viagem emocional, Devil Blues devolve o ouvinte ao chão. Única faixa com letra do álbum, interpretada pelo próprio George Adams, ela recupera a rudeza do Blues em sua expressão mais crua. A voz áspera do saxofonista, o baixo pulsante de Mingus e os solos incendiários produzem uma descarga de energia que funciona quase como uma purificação depois da complexidade psicológica da suíte anterior.

O encerramento com Duke Ellington’s Sound of Love conduz o álbum para uma atmosfera inteiramente distinta. A intensidade cede espaço à contemplação. Escrita como uma homenagem a Duke Ellington, a composição é profundamente melancólica, mas nunca resignada. Mingus prefere celebrar o legado de seu maior mestre por meio da delicadeza, encerrando o disco com uma das páginas mais belas de sua carreira.

Changes One demonstra que a liberdade artística não nasce da ausência de limites, mas da capacidade de expandi-los continuamente. Mingus faz da improvisação um instrumento de construção, não de dispersão. Cada ruptura encontra seu lugar dentro de um desenho maior, e cada gesto aparentemente caótico participa de uma arquitetura rigorosamente pensada.

Poucos discos conseguem traduzir com tanta precisão as contradições da experiência humana. Em Changes One, o conflito nunca é resolvido, apenas transformado em música. Talvez seja essa a grande virtude da obra: revelar que ordem e desordem não são forças incompatíveis, mas dimensões complementares da mesma criação artística.

Clique aqui para ouvir.

 

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