Acabei de assistir à coletânea The Short Films of David Lynch, que reúne alguns dos principais curta-metragens de David Lynch realizados entre as décadas de 1960 e 1990.
Ver esses trabalhos iniciais foi quase como observar a gênese de um universo que, mais tarde, se tornaria plenamente reconhecível nos longas. A atmosfera inquietante, o gosto pelo estranho, a lógica onírica, a tensão entre o banal e o perturbador, o uso expressivo do som e a recusa de explicações fáceis: tudo isso já pulsa nesses primeiros experimentos.
Comecemos pelo curta Six Men Getting Sick (Six Times), dirigido em 1966, o primeiro exibido na coletânea. Trata-se do trabalho inicial de David Lynch e já revela muito sobre sua sensibilidade estética.
O filme é uma animação projetada sobre uma tela, mostrando seis figuras humanas cujos estômagos incham até o limite, enquanto suas cabeças pegam fogo. Em seguida, todos vomitam. Essa sequência se repete em loop ao som de uma sirene estridente e incessante, o que intensifica a sensação de desconforto. A obra foi concebida originalmente como uma “pintura em movimento” para um concurso de arte. O loop, com cerca de 40 segundos, era projetado continuamente por meio de um mecanismo que levava o filme até o teto antes de retorná-lo ao projetor, criando um efeito circular tanto visual quanto mecânico.
Mesmo sendo um experimento rudimentar, o curta já antecipa uma ideia recorrente no cinema de Lynch: o fascínio pelo grotesco e a ausência de pudor em expor o que é repulsivo ou aflitivo. Essa disposição para confrontar o espectador com o incômodo reaparece, por exemplo, na famosa cena do frango em Eraserhead e na perturbadora cena de vômito envolvendo Mr. C e Dougie em Twin Peaks: The Return.
Em seguida, temos The Alphabet, dirigido em 1968 por David Lynch. Eu já havia visto trechos do filme no YouTube, mas foi a primeira vez que o assisti completo.
O curta combina animação e live-action para representar o pesadelo de uma menina ligado ao processo de aprendizagem. Vemos uma jovem deitada na cama, recitando o alfabeto de maneira cada vez mais angustiada, como se estivesse em um estado febril e alucinatório. Em poucos minutos, o filme apresenta uma sucessão de imagens perturbadoras e ideias estranhas, fundindo surrealismo e horror de forma muito particular. A voz infantil, suave e aparentemente inocente, apenas intensifica o desconforto. É um dos pontos altos da coletânea.
Depois vem The Grandmother, filmado em 1970. Com cerca de 34 minutos, é o curta mais longo e narrativamente mais desenvolvido do conjunto. A história acompanha um menino que sofre abusos e negligência por parte dos pais, retratados quase como criaturas animalescas, que se comunicam por meio de grunhidos e latidos. Para escapar desse ambiente hostil, o garoto sobe ao sótão, coloca um monte de terra sobre a cama e planta uma semente. Dessa terra brota uma forma grotesca, da qual “nasce” uma avó carinhosa, completamente vestida, que oferece ao menino o afeto que lhe é negado em casa.
Assim como em The Alphabet, Lynch mistura animação e live-action, construindo uma sequência de imagens bizarras e simbolicamente carregadas. O filme aborda temas sensíveis, como violência doméstica e abuso de substâncias, sugeridos pelo comportamento errático e agressivo dos pais.
Não se trata de uma narrativa que busca explicações claras. Como é comum no cinema de Lynch, o sentido não é entregue de maneira racional ou didática. O filme opera segundo a lógica dos sonhos, ou melhor, dos pesadelos. Há uma preferência evidente pelas sensações em vez da explicação objetiva. A obra convida o espectador a abandonar a necessidade de compreender tudo e a se deixar afetar pelo que vê.
Depois temos The Amputee, de 1974. Talvez seja um dos curtas mais perturbadores de sua carreira.
O filme mostra uma mulher com as duas pernas amputadas, sentada em uma cadeira, escrevendo e narrando em voz alta uma carta carregada de ressentimento dirigida a personagens chamados Jim, Paul e Helen.
Enquanto ela escreve, um enfermeiro, interpretado pelo próprio Lynch, entra em cena para trocar os curativos dos tocos de suas pernas. O que começa como um procedimento médico aparentemente rotineiro rapidamente se transforma em algo grotesco: o enfermeiro tenta estancar, de maneira cada vez mais desesperada, um sangramento intenso, enquanto a mulher continua a narrar sua carta em tom banal, como se nada estivesse acontecendo.
O contraste é brutal. De um lado, a fala trivial. De outro, o corpo mutilado e o sangue que escorre.
O design de som é fundamental para criar a aflição nesse curta. Ouvimos o ruído das raspagens, o som viscoso do sangue jorrando e atingindo o chão, a porta batendo, os instrumentos médicos sendo manuseados às pressas. E, acima de tudo, há a indiferença da mulher, que não reage ao caos ao seu redor.
É curioso perceber que a personagem não demonstra sofrimento evidente. Quem se aflige é o espectador. Lynch constrói um contraste dramático entre o banal e o horror físico, obrigando-nos a confrontar a dissociação entre palavra e corpo, entre cotidiano e trauma.
Muitos dizem detestar esse curta, acusando-o de ser apenas violência gratuita. Eu discordo. Em um filme de Lynch, o que está em jogo não é a explicação racional ou a moral explícita, mas a experiência sensorial. O desconforto não é um efeito colateral. É o próprio centro da proposta. Se o filme incomoda, é provável que esteja cumprindo exatamente aquilo a que se propõe.
Em seguida, temos The Cowboy and the Frenchman, dirigido em 1988. Uma comédia de 26 minutos feita para a televisão francesa, estrelada por Harry Dean Stanton e Jack Nance.

Um grupo de caubóis americanos encontra um francês de boina que desce uma montanha. Inicialmente confusos e tratando o homem como um alienígena, os caubóis revistam sua mala, que contém uma quantidade exagerada de baguetes, vinhos e queijos. Apesar da falta de comunicação verbal, eles acabam criando um laço e realizam uma festa que dura a noite toda.
Esse curta é o que podemos chamar de humor lyncheano, algo que seria plenamente explorado em Twin Peaks, especialmente na segunda temporada.
Trata-se de um humor desavergonhadamente bobo. O que eu gosto em Lynch é que, apesar de ser um artista vanguardista e pós-moderno, o que poderia sugerir que ele seja sisudo e blasé, ele na verdade parece ser um sujeito de riso fácil e ter gosto pelo humor simplório. Consigo imaginá-lo se divertindo mais com programa de auditório, como Ratinho Livre, e humor de esquete, como Zorra Total, do que com sátiras sociais ou comédia de costumes. David Lynch gosta da casca de banana no chão e da torta na cara.
Por fim, temos Premonitions Following an Evil Deed, realizado em 1995 por David Lynch. Trata-se de um curtíssimo experimento de apenas 55 segundos, filmado com a câmera original dos irmãos Lumière, um detalhe técnico que já indica sua natureza quase arqueológica. O gesto é claramente uma homenagem às origens do cinema, como se Lynch quisesse conectar sua imaginação sombria ao nascimento da própria linguagem cinematográfica.
Em termos narrativos, o filme é fragmentado e intenso. A sequência começa com policiais se aproximando de um corpo sem vida. A partir daí, somos bombardeados por imagens rápidas, de atmosfera gótica e opressiva: figuras grotescas, cenas que sugerem tortura, uma mulher em agonia. Tudo é muito condensado, quase como flashes de um trauma. No final, os policiais entram em uma casa no exato momento em que um pai e uma mãe parecem perceber que estão prestes a receber uma notícia devastadora.
Isoladamente, o curta pode parecer apenas um exercício formal, mais interessante pelo contexto de produção do que pelo conteúdo em si. Ainda assim, mesmo em menos de um minuto, é possível reconhecer traços lyncheanos: a sugestão de violência, a atmosfera de presságio, o mal que se infiltra no ambiente doméstico, a recusa de explicações claras.
Em suma, The Short Films of David Lynch é um material essencial para quem deseja compreender melhor o diretor. Os curtas revelam que seu universo visual e temático já estava plenamente formado desde o início. O grotesco, o onírico, o humor absurdo, o desconforto sensorial, tudo já estava ali, em estado bruto.
Se há um defeito nessa coletânea, é a sensação de incompletude. Lynch realizou diversos outros curtas ao longo das décadas, inclusive trabalhos posteriores que ficaram de fora. Seria interessante ter uma edição realmente abrangente, que reunisse toda essa produção em um único lançamento. Para quem admira seu cinema, dá vontade de ter acesso a tudo, sem exceções.