Acabei de ler Contos Pavorosos, de Gaston Leroux, o famoso autor de O Fantasma da Ópera. O livro é uma coletânea de narrativas curtas, todas bem sombrias e macabras.
A edição saiu como um livreto de bolso do Clube de Literatura Clássica, que acompanha o box de O Fantasma da Ópera. A coletânea reúne os contos O Jantar dos Bustos (meu favorito), O Machado de Ouro, A Estalagem Aterradora e O Natal do Pequeno Vincent-Vincent.
Apesar do clima gótico e das descrições às vezes bem gráficas de violência, todas as histórias têm um humor cáustico e irônico atravessando o horror. Leroux frequentemente empurra seus personagens para situações de violência tão extremas que acabam beirando o ridículo. Em O Jantar dos Bustos, por exemplo, a premissa é macabra, mas tudo é conduzido com uma etiqueta social quase cômica, o que deixa a coisa ainda mais estranha.
Isso tem muito a ver com o passado do autor como repórter policial. Leroux narra atrocidades com um certo distanciamento cínico, tratando o bizarro com uma naturalidade que gera um efeito claro de humor negro. Ele usa o riso como válvula de escape, permitindo que o leitor oscile entre choque e entretenimento sem ficar soterrado por um pessimismo pesado demais.
É difícil não perceber a influência do Grand Guignol, o famoso teatro parisiense fundado em 1897, especializado em espetáculos que misturavam horror gráfico, violência naturalista, erotismo e comédias leves. Essa alternância de emoções era conhecida como “banhos quentes e frios” (douches écossaises), pensada para levar a plateia do riso ao pânico absoluto na mesma noite.
Leroux foi profundamente moldado pela atmosfera da Paris da Belle Époque, onde o Grand Guignol era um dos grandes centros do entretenimento macabro. Essa influência aparece com clareza na sua escrita. Seus contos têm pouco de sobrenatural: o horror aqui é naturalista, baseado em loucuras humanas, vinganças, mutilações e erros médicos. Em O Jantar dos Bustos, por exemplo, o terror não vem do além, mas da crueldade e da bizarrice humana.
O Grand Guignol também era famoso por seus efeitos especiais rudimentares, porém chocantes, como decapitações e extrações de olhos. Leroux transpõe essa estética do choque para o papel, descrevendo ferimentos e cenas de crime com uma precisão quase “cirúrgica”, algo que ele claramente herdou da experiência como repórter policial.
Assim como as peças do teatro alternavam entre o pavor e o burlesco, Leroux usa o humor negro para desestabilizar o leitor. Em O Natal do Pequeno Vincent-Vincent, o final irônico (que não vou revelar para não estragar a surpresa) segue exatamente essa lógica: encerrar uma situação terrível com uma nota de absurdo ou deboche.
No fim das contas, Contos Pavorosos funciona como um espetáculo macabro, exagerado e divertido, muito mais próximo de um show de palco do que de um horror solene.