O filme A Hora da Estrela, de 1985, é um aclamado clássico do cinema nacional, considerado um dos 100 melhores filmes brasileiros de todos os tempos pela Associação de Críticos de Cinema. Dirigido por Suzana Amaral e baseado no romance homônimo de Clarice Lispector, o filme narra a história trágica e singela de Macabéa, interpretada magistralmente por Marcélia Cartaxo. Trata-se de uma jovem nordestina órfã, pobre e ingênua que migra para São Paulo em busca de uma vida melhor e acaba encontrando apenas invisibilidade, monotonia e a ausência de qualquer horizonte aspiracional. Seu emprego modesto como datilógrafa sustenta uma existência mínima, quase apagada, marcada por uma ingenuidade que não é virtude nem escolha, mas apenas condição.
A rotina muda quando ela começa a namorar Olímpico de Jesus, um metalúrgico nordestino de ambições desproporcionais à sua realidade. Ele a trata de forma abusiva, enxerga nela uma espécie de degrau dispensável e a abandona rapidamente por Glória, colega de trabalho mais assertiva, mais encantadora aos olhos dele e, segundo suas próprias palavras, mais cheinha. Este abandono revela não apenas a fragilidade emocional de Macabéa, mas a lógica social que a define como descartável.
Aconselhada por Glória, Macabéa visita a cartomante Madame Carlota e recebe uma profecia grandiosa sobre um futuro luminoso, um casamento com um homem rico e loiro, uma vida completamente distinta daquela que conhece. Sai de lá vestindo um novo vestido e carregando uma esperança inédita, mas é atropelada por um carro importado, supostamente pertencente ao tal homem rico. Sua morte abrupta é paradoxal porque representa a única ocasião em que a personagem adquire visibilidade, a única vez em que seu corpo e seu destino forçam o mundo ao redor a reconhecê-la. Essa é sua “hora da estrela”, o instante em que a existência efêmera finalmente é percebida pelos outros.
A primeira vez que assisti ao filme foi na escola, provavelmente em uma aula de português ou literatura. Mesmo sem prestar muita atenção, fui fortemente impactado. Havia algo de familiar na figura de Macabéa, algo que me lembrava um pouco a minha mãe, principalmente na mistura de ingenuidade, resistência silenciosa e vulnerabilidade emocional.
Entre os muitos temas possíveis, o aspecto existencialista é o que mais me interessa. A obra de Clarice Lispector já carrega um existencialismo singular, mais sensorial que conceitual, mas o filme traduz esse sentimento de forma particularmente crua. Macabéa existe, mas parece desconhecer qualquer essência ou propósito. Sua existência não é a expressão de uma escolha, mas a aceitação automática de um lugar no mundo que lhe foi imposto. Sua consciência é embrionária, quase infantil. Ela apenas é, e sua forma de ser é marcada pela pobreza material e simbólica.
Sua dor é constante, mas indiferenciada. Macabéa sente, mas não compreende o que sente. Ela mistura sofrimento emocional com desconforto físico e tenta aliviar tudo com aspirinas, como se a angústia pudesse ser medicada da mesma maneira que uma dor de cabeça. Essa confusão revela um sujeito que não domina a linguagem do próprio corpo nem da própria interioridade. Sua angústia é silenciosa, solitária e incompreendida até por ela mesma.
O rádio se torna então um dispositivo fundamental. Ele oferece companhia, preenche o silêncio opressivo do quarto alugado e cria a ilusão de que ela tem algum vínculo com o resto da humanidade. A Rádio Relógio, com seus anúncios da hora certa intercalados com informações aleatórias e publicidade, funciona como uma espécie de fio cultural mínimo ao qual ela tenta se agarrar. É ali que tenta construir uma identidade rudimentar, colhendo migalhas de informação que lhe permitam preencher o vazio. A música desempenha um papel especialmente simbólico. A valsa O Danúbio Azul e a ária Una furtiva lacrima surgem como leitmotiv que contrastam drasticamente com a feiura e a precariedade de sua vida. Essas melodias refinadas constituem um portal para o escapismo e reforçam a distância entre o mundo que Macabéa habita e o mundo ao qual ela jamais terá acesso.
Filosoficamente, Macabéa representa a forma extrema da existência não refletida. Enquanto grande parte do existencialismo parte da angústia consciente, ela encarna a angústia inconsciente. Seu drama não é a busca pelo sentido, mas a ausência de ferramentas para iniciar essa busca. Ela vive num limiar entre o ser e o não ser, entre estar viva e estar anulada, entre a presença física e a ausência simbólica. É uma figura que evidencia a pobreza ontológica, uma vida tão reduzida que qualquer gesto de esperança parece excessivo.
A morte de Macabéa é trágica, mas também irônica. Seu destino não lhe oferece transcendência, mas oferece visibilidade, ainda que por um instante. É como se a única forma de sua vida adquirir sentido fosse pela interrupção brutal dela mesma. Esse paradoxo ecoa a própria tese do filme e do romance: algumas existências são tão negligenciadas que o único modo de serem vistas é desaparecer. É uma reflexão amarga sobre desigualdade, sobre a brutalidade anônima das cidades e sobre como certas vidas são estruturalmente invisíveis.
A Hora da Estrela, portanto, não é apenas a história de uma jovem pobre que morre atropelada. É uma reflexão sobre o que significa existir na borda extrema da condição humana. Macabéa é um espelho desconfortável que revela os limites da empatia social e a fragilidade das narrativas de ascensão. Sua existência mínima obriga o espectador a confrontar a pergunta fundamental: quantas vidas só se tornam visíveis quando acabam?