Gosto muito de discos que não precisam chamar a atenção o tempo todo. Scenes From Above, álbum mais recente do guitarrista norte-americano Julian Lage, lançado no início de 2026 pela lendária Blue Note Records, é exatamente esse tipo de trabalho. É um disco suave, delicado e acolhedor, que me agrada especialmente pela maneira como Lage abre mão do protagonismo para dar espaço aos outros músicos. Em vez de colocar a guitarra no centro de tudo, ele constrói um ambiente intimista, no qual cada instrumento tem espaço para se expressar sem disputar a atenção do ouvinte.
O álbum conta com a produção de Joe Henry, que já havia trabalhado com Lage em Speak to Me, lançado dois anos antes.
A formação reúne Julian Lage na guitarra e nas composições, John Medeski nos teclados, piano e órgão Hammond B-3, Jorge Roeder no contrabaixo, Kenny Wollesen na bateria e percussão e Patrick Warren nos pianos, sinos, dulcitone e arranjos adicionais de cordas e percussão.
O processo de criação partiu de um exercício experimental de Lage. Ele escreveu os esboços iniciais das músicas em sessões rápidas, com um cronômetro de apenas 20 minutos. A ideia era criar composições minimalistas que servissem como pontos de partida para que os músicos desenvolvessem suas próprias ideias durante as gravações.
O material foi gravado ao vivo, de maneira orgânica, em apenas dois dias, no estúdio Sear Sound, em Nova York. Essa abordagem combina com o resultado: o álbum se desenvolve sem pressa, valorizando a interação entre os instrumentos e os espaços que cada músico deixa para os demais.
Lage não parece interessado em transformar as composições em demonstrações de virtuosismo. Sua guitarra divide naturalmente o espaço com os teclados de Medeski, o contrabaixo de Roeder e a bateria de Wollesen. Os arranjos são contidos, mas estão longe de ser monótonos. Há movimento, pequenas descobertas e mudanças sutis de atmosfera, sem a necessidade de grandes contrastes para manter o interesse.
Entre os destaques para mim estão Havens e a pequena suíte melancólica e etérea Night Shade. A primeira chama a atenção pela execução de Lage no violão, que explora a delicadeza do instrumento sem perder a expressividade. Já Night Shade talvez seja uma das músicas mais relaxantes que ouvi neste ano. Os órgãos de Medeski e a guitarra de Lage criam paisagens sonoras íntimas e arejadas, conduzindo a música por uma atmosfera contemplativa que convida a desacelerar.
Scenes From Above encontra sua força justamente na ausência de excessos. Lage poderia transformar o disco em uma demonstração de suas habilidades como guitarrista, mas prefere construir algo coletivo, sem tratar o jazz como uma competição de virtuosismo. O resultado é um álbum que funciona muito bem quando quero parar um pouco, tomar um café e simplesmente ouvir música, sem precisar que algo grandioso aconteça a cada instante. É justamente essa tranquilidade, aliada à delicadeza das composições, que faz do disco uma companhia tão agradável.