Imagine uma trilha sonora de balé composta por um DJ de música eletrônica. Pois bem, é isso que temos em Mere Mortals, um dos discos mais interessantes lançados em 2026 e, talvez, o meu favorito do ano ao lado de The Mountain, do Gorillaz.
O álbum é uma parceria entre o produtor e compositor britânico Sam Shepherd, conhecido profissionalmente como Floating Points, e a Orquestra de Balé de São Francisco.
Dividido em 14 movimentos, o trabalho combina sintetizadores modulares, drones e texturas eletrônicas com as cordas, os metais e a percussão da música orquestral.
Temos aqui composições diversas que transitam entre a delicadeza contemplativa e a tensão quase insuportável, alternando passagens de beleza melódica com momentos de estranhamento, violência e desordem.
A proposta nasceu de uma encomenda de Tamara Rojo, diretora artística do San Francisco Ballet, para um espetáculo que estreou em 26 de janeiro de 2024, no War Memorial Opera House.
A coreografia do espetáculo foi de Aszure Barton, enquanto o universo visual foi desenvolvido pela Hamill Industries.

Entretanto, o álbum só chegou às plataformas em agosto de 2026, permitindo que a composição fosse apreciada independentemente do espetáculo para o qual foi concebida.
Durante as apresentações, Shepherd operava seus sintetizadores ao lado da orquestra, participando diretamente da execução musical. Essa disposição já oferece uma pista importante para compreender o projeto. Em Mere Mortals, a música eletrônica não funciona apenas como um acompanhamento moderno para uma formação clássica. Ela participa da construção de um conflito estético que atravessa toda a obra: a relação entre a capacidade humana de criar e as forças tecnológicas que, uma vez colocadas em movimento, podem escapar ao nosso controle.
O ponto de partida conceitual de Mere Mortals é o mito de Pandora, reinterpretado à luz das inquietações contemporâneas sobre a inteligência artificial e o desenvolvimento tecnológico.
Na tradição grega, Pandora abre um recipiente que libera os males e sofrimentos da humanidade. A história costuma ser interpretada como uma advertência contra a curiosidade e a desobediência. A releitura proposta pelo espetáculo procura atualizar essa dimensão da curiosidade, deslocando a ideia do mito para o contexto da descoberta e da transformação tecnológica atuais.
É uma questão particularmente pertinente em uma época na qual tecnologias como a inteligência artificial avançam em uma velocidade que nem sempre permite compreender suas consequências sociais, econômicas e culturais. Desenvolvemos ferramentas capazes de realizar tarefas cada vez mais complexas, mas continuamos discutindo quem deve controlá-las, a quem elas servem e quais aspectos da experiência humana podem ser transformados nesse processo.
Esse é um tema tão importante que o próprio Papa se dedicou a escrever sobre.
A aproximação entre Pandora e a inteligência artificial não significa que a tecnologia seja necessariamente um mal. Essa interpretação seria simplista demais para uma obra interessada justamente na ambiguidade.

A combinação ambígua entre música eletrônica e orquestra oferece uma maneira interessante e refinada de representar musicalmente a tensão entre diferentes formas de existência, criação e organização.
Os sintetizadores de Shepherd evocam um universo de precisão, repetição e abstração. Seus pulsos, sequências e padrões podem sugerir o funcionamento de sistemas automatizados, nos quais os acontecimentos parecem obedecer a uma lógica própria. Os drones prolongados, as frequências graves e os ruídos processados criam ambientes sonoros que nem sempre permitem identificar uma fonte ou reconhecer uma intenção humana por trás de cada acontecimento.
A música eletrônica assume, assim, uma dimensão quase impessoal. Seu movimento pode parecer determinado por regras que continuam operando independentemente de nossa vontade. Os sons se repetem, acumulam tensão, alteram suas frequências e se transformam sem necessariamente oferecer a sensação de um organismo expressando sentimentos de maneira reconhecível.
A orquestra, por sua vez, introduz outra qualidade. As cordas respiram, os metais adquirem peso dramático e os instrumentos acústicos produzem variações de intensidade e textura que parecem carregar uma presença física. Mesmo quando os músicos seguem uma partitura rigorosamente definida, existe uma dimensão concreta na execução: corpos interpretam sinais, instrumentos respondem a gestos e diferentes naipes precisam se articular para produzir um resultado comum.
Essa distinção permite uma leitura simbólica na qual a eletrônica representa o sintético, enquanto a orquestra expressa o humano.
É importante, porém, não tomar essa oposição como uma verdade absoluta.
A orquestra não é necessariamente a voz de uma humanidade pura, assim como o sintetizador não representa uma máquina desprovida de qualquer intenção humana. Ambos são produtos da criação. O que muda é a maneira como suas características sonoras nos levam a perceber o controle, a espontaneidade, a repetição e a presença física.
Essa leitura encontra um paralelo interessante na filosofia da técnica de Gilbert Simondon. Para o filósofo francês, a máquina não deve ser compreendida apenas como um objeto estranho ao ser humano, subordinado a uma oposição simplista entre natureza e tecnologia. Os objetos técnicos possuem modos próprios de funcionamento e se desenvolvem em relação com os ambientes e as pessoas que os operam. A questão não é simplesmente escolher entre o humano e o mecânico, mas compreender como esses elementos se relacionam.
Em Mere Mortals, essa relação se torna audível. A música eletrônica não permanece confinada a um espaço separado, enquanto a orquestra ocupa outro. Os sons se atravessam, interferem uns nos outros e, por vezes, tornam difícil determinar onde termina uma textura e começa a outra. O resultado é menos um duelo entre dois universos independentes do que uma investigação sobre aquilo que acontece quando eles passam a compartilhar o mesmo espaço.
Essa tensão aparece com particular clareza no terceiro movimento, Rage of the Gods. A faixa se apoia em drones pesados e percussões de caráter bélico, construindo uma atmosfera de ameaça que parece crescer de dentro da própria composição. Os sons eletrônicos e a massa orquestral deixam de funcionar como elementos complementares e passam a produzir uma sensação de força acumulada, como se algo estivesse prestes a romper os limites que o mantinham contido.
É um dos momentos em que a proposta conceitual do disco se torna mais evidente. A repetição, que em outros contextos poderia produzir um efeito hipnótico ou dançante, adquire aqui uma qualidade opressora. Os padrões parecem continuar avançando mesmo quando já não existe qualquer sensação de estabilidade. A música transmite a impressão de um mecanismo que ganhou impulso próprio.
Em outros momentos, Shepherd explora o contraste de maneira mais sutil. Cordas delicadas e ondulantes podem ser interrompidas por percussões ásperas e regulares, enquanto violinos dissonantes introduzem uma sensação de instabilidade em passagens que, inicialmente, pareciam oferecer algum conforto.
A beleza não desaparece, mas passa a conviver com a possibilidade permanente de ruptura.
Essa alternância é fundamental para evitar que Mere Mortals se transforme em uma simples ilustração sonora de uma história sobre tecnologia. A música não precisa reproduzir literalmente o funcionamento de uma máquina nem imitar os sons que associamos à inteligência artificial. Ela trabalha com nossas próprias expectativas auditivas, apresentando padrões que parecem seguros para depois desestabilizá-los.
O sexto movimento, Pandora’s Theme, oferece outra perspectiva sobre essa relação. As cordas e os sopros constroem uma expressão melódica expansiva, enquanto a eletrônica interfere no desenvolvimento da passagem. Em vez de simplesmente opor o calor dos instrumentos acústicos à frieza dos sintetizadores, Shepherd permite que as duas linguagens compartilhem o mesmo impulso musical.
Já em Falling to Earth, o oitavo movimento, a combinação entre tímpanos e texturas eletrônicas produz uma escalada de intensidade que parece deslocar a música para um terreno cada vez mais instável. O efeito é físico. A percussão estabelece uma presença quase ritualística, enquanto os sons sintéticos alteram a percepção do espaço e da escala dos acontecimentos.
São momentos que demonstram como a composição consegue aproximar a tradição orquestral e a música eletrônica sem reduzir uma linguagem à outra. Shepherd não utiliza a orquestra apenas para conferir grandiosidade aos sintetizadores, nem recorre à eletrônica como um enfeite futurista para uma composição essencialmente clássica. Os dois universos são necessários para construir a personalidade do disco.
Existe ainda uma questão mais profunda nessa aproximação. Tanto a tecnologia quanto a arte envolvem processos de criação cujos resultados nem sempre podem ser inteiramente previstos.
Compor uma peça musical é estabelecer relações entre elementos, construir estruturas e tomar decisões sobre o desenvolvimento de uma obra. Mas o resultado dessas decisões nem sempre corresponde exatamente àquilo que imaginávamos no início. Uma sequência de notas pode adquirir um sentido inesperado quando combinada a determinado timbre. Uma alteração aparentemente pequena pode modificar a percepção de uma passagem inteira.
A música eletrônica torna essa questão especialmente interessante porque permite que o compositor trabalhe diretamente com o comportamento do som. Em vez de escrever apenas para instrumentos que já possuem características acústicas estabelecidas, Shepherd pode criar frequências, modificar timbres, prolongar sons e construir relações que não existiriam da mesma maneira no mundo acústico.
A máquina amplia as possibilidades da criação, mas também modifica a relação do artista com aquilo que está sendo criado. O instrumento deixa de ser apenas um meio para executar uma ideia previamente concebida e passa a participar da descoberta de novas possibilidades musicais.
É nesse ponto que Mere Mortals se aproxima das discussões atuais sobre inteligência artificial. A questão não é apenas saber se uma máquina consegue produzir alguma coisa que reconhecemos como arte. É compreender como a introdução de novos sistemas técnicos transforma os processos de criação, os critérios de autoria e a relação entre intenção e resultado.
A comparação tem seus limites. Os sintetizadores utilizados por Shepherd não são, por si mesmos, sistemas de inteligência artificial, e a composição do álbum foi desenvolvida por seres humanos. O próprio San Francisco Ballet esclareceu que a inteligência artificial foi utilizada como referência temática e em parte do ambiente visual, não na composição musical, na coreografia ou na dramaturgia, desenvolvidas por pessoas. A relação entre o disco e a IA é, portanto, conceitual, não uma descrição de como a música foi produzida.
Essa distinção torna a obra ainda mais interessante. Mere Mortals não precisa recorrer à inteligência artificial para investigar as inquietações que ela provoca. Ao colocar instrumentos acústicos e eletrônicos em diálogo, o disco oferece uma reflexão sobre a própria história da técnica e sobre como cada nova ferramenta modifica aquilo que entendemos por criação.
A caixa de Pandora deixa de ser apenas um recipiente que guarda forças perigosas. Ela passa a representar o momento em que uma possibilidade é transformada em realidade, quando uma descoberta deixa de existir apenas como hipótese e começa a produzir consequências concretas.
O mito de Pandora também contém uma ambiguidade que considero essencial para compreender o disco. Na narrativa tradicional, depois que os males escapam do recipiente, a esperança permanece associada ao seu interior. Sua presença admite interpretações distintas: ela pode ser entendida como aquilo que resta à humanidade diante do sofrimento ou como uma promessa cujo significado nunca se resolve completamente.
Em Mere Mortals, essa ambiguidade encontra correspondência no próprio desenvolvimento musical. A composição não se limita a construir uma progressão entre a ordem inicial e o caos final. Há momentos de delicadeza, passagens contemplativas e breves sinais de estabilidade que coexistem com a tensão. Mesmo quando a música parece caminhar para a desintegração, permanece a possibilidade de encontrar alguma forma de continuidade.
Essa dimensão aparece especialmente na relação entre a escala grandiosa da orquestra e a precisão dos elementos eletrônicos. Os instrumentos acústicos podem sugerir vulnerabilidade, mas também demonstram uma capacidade extraordinária de adaptação e resposta. A eletrônica pode soar ameaçadora, mas é igualmente responsável por algumas das passagens mais delicadas do álbum. Não existe uma divisão moral definitiva entre os dois lados.
A conclusão, Nowhere to Land, preserva essa sensação de incerteza. As cordas se movimentam sobre uma base eletrônica pulsante, enquanto os metais conduzem a composição a um encerramento de caráter dramático. Não se trata de uma resolução plenamente reconfortante. A música parece chegar ao fim sem que as forças colocadas em movimento tenham encontrado um lugar definitivo para repousar.
Esse encerramento me parece adequado à proposta de Mere Mortals. Se o disco fosse apenas uma advertência contra a tecnologia, bastaria representar a máquina como uma força destrutiva e a orquestra como a resistência humana. Mas Shepherd escolhe um caminho mais interessante. Ele demonstra que a criação tecnológica pode ser ameaçadora e fascinante, assim como a tradição humana pode oferecer tanto estabilidade quanto conflito.
A própria existência do álbum depende dessa colaboração. A eletrônica não substitui a orquestra, e a orquestra não neutraliza a eletrônica. A obra surge da interação entre ambas, de suas diferenças e daquilo que se torna possível quando essas diferenças são exploradas musicalmente.

No fim das contas, Mere Mortals é um disco sobre a dificuldade de estabelecer fronteiras seguras entre controle e imprevisibilidade, humanidade e tecnologia. O mito de Pandora oferece a Shepherd uma estrutura narrativa para abordar essas questões, mas é a música que lhes confere profundidade. Em vez de explicar o perigo do progresso, a composição nos faz experimentar sua instabilidade.
É por isso que considero Mere Mortals um dos trabalhos mais interessantes deste ano. A combinação entre música eletrônica e orquestra não é apenas uma demonstração de versatilidade técnica. Ela sustenta uma ideia estética que se desenvolve ao longo dos 14 movimentos, transformando diferenças de timbre, textura e organização sonora em uma reflexão sobre o nosso próprio tempo.
Talvez a pergunta mais importante deixada pelo disco não seja o que acontecerá quando abrirmos a caixa de Pandora, mas o que faremos depois disso. Afinal, a curiosidade que nos leva a criar novas ferramentas é a mesma que nos coloca diante de consequências que ainda não sabemos compreender. E não existe sintetizador, algoritmo ou orquestra capaz de resolver essa contradição por nós.