Loft é um filme japonês de terror psicológico e mistério lançado em 2005, dirigido por Kiyoshi Kurosawa. Assim como em outros trabalhos do diretor, a narrativa se apoia em atmosferas rarefeitas, espaços isolados e uma sensação persistente de deslocamento. Neste caso, essas características são organizadas de maneira deliberadamente pantanosa.

A história acompanha Reiko (Miki Nakatani), uma escritora de romances policiais que enfrenta um bloqueio criativo. Em busca de isolamento, ela se muda temporariamente para um loft adaptado em uma região rural afastada. O entorno é marcado por água parada, vegetação densa e um silêncio constante, compondo um espaço que parece mais propício à estagnação do que à introspecção. Nesse cenário, Reiko conhece Makoto (Etsushi Toyokawa), professor universitário e arqueólogo envolvido na pesquisa de uma múmia preservada encontrada em um lago próximo.

A presença da múmia funciona como um ponto de inflexão para a narrativa. A partir de seu envolvimento indireto com o achado, Reiko passa a vivenciar visões e episódios paranormais que atravessam tanto a casa isolada quanto sua percepção subjetiva da realidade. O horror não se apresenta de forma imediata, mas se acumula lentamente, como um terreno encharcado que cede aos poucos sob o peso de quem o atravessa.

Em Loft, o medo se constrói por saturação. A narrativa insiste em imagens de umidade, decomposição e contato prolongado com algo orgânico e incômodo, sem recorrer a rupturas abruptas. Elementos do folclore japonês ligados à vaidade, à beleza e à preservação do corpo são combinados a um suspense contemporâneo que gira em torno da instabilidade mental e da perda de referências claras.

Os segredos associados à múmia e ao personagem de Makoto emergem de forma fragmentada. Em vez de revelações articuladas, o filme oferece indícios dispersos, que surgem e desaparecem sem se consolidar plenamente, como vestígios que afloram à superfície antes de afundar novamente.

Formalmente, Kurosawa recorre a planos estáticos, enquadramentos rígidos e a um desenho de som baseado na escassez, utilizando o silêncio como principal recurso de tensão. A ausência de jump scares reforça uma experiência marcada pela espera e pela estagnação, em que o desconforto nasce menos do choque e mais da permanência.

Ainda que o filme aborde temas como culpa, sanidade, morte e destino, essa investigação ocorre de maneira irregular. A narrativa avança e recua, cria desvios e sobreposições, e frequentemente parece hesitar quanto ao próprio foco. Assistir a Loft se assemelha a caminhar por um pântano narrativo: o deslocamento é lento, os caminhos não são claros e, em muitos momentos, o esforço não resulta em progresso perceptível.

Há boas cenas, um desfecho interessante, ainda que inclusivo demais, e uma plasticidade visual que evoca uma beleza putrefata.

Ainda assim, o filme parece constantemente à beira de se perder em sua própria lama.

Confesso que, em muitos momentos, senti dificuldade em acompanhar seu foco. Ora a narrativa se desloca para os mistérios sobrenaturais da múmia milenar, ora se concentra em assassinatos locais, perseguições, traumas não resolvidos e alucinações sombrias. Há, essencialmente, dois mistérios que se sobrepõem: o da múmia com mais de mil anos e o de um assassinato ocorrido na região. O olhar do espectador é dividido entre esses dois eixos, o que compromete tanto a atenção quanto o engajamento emocional.

Talvez essa fragmentação seja intencional. A memória, sobretudo quando atravessada por trauma e obsessão, raramente é organizada. Ela é turva, descontínua, enganosa. Ainda assim, em Loft, essa escolha resulta em uma sensação de ideias lançadas ao terreno pantanoso da narrativa sem que sejam plenamente desenvolvidas. Um exemplo claro é Reiko vomitando lama no início do filme. A imagem sugere uma conexão potente com a história da múmia, que teria ingerido lama como ritual de beleza interior, já que a substância era usada como cosmético. No entanto, essa relação promissora é simplesmente abandonada, como se tivesse afundado antes de se articular.

Senti algo semelhante ao assistir Carisma (1999), outro filme de Kurosawa. Além das afinidades estéticas, como o uso mínimo de movimentos de câmera, poucos cortes, atmosfera sombria, voyeurismo e ausência de iluminação artificial, há uma repetição de procedimentos narrativos. Ideias são introduzidas, tensionadas, parcialmente desconstruídas e, em seguida, deixadas para trás. Não se trata, aparentemente, de descuido, mas de um padrão recorrente.

Kurosawa parece errar sempre nos mesmos pontos, a tal ponto que esses erros deixam de soar como falhas e passam a se configurar como método. Um método narrativo deliberadamente pantanoso, que recusa clareza, progressão e resolução. Caminhar por seus filmes é aceitar a sujeira, o peso nas pernas e a incerteza do próximo passo.

Em suma, é um filme de que confesso não ter gostado. Ainda assim, ele é estranho e instigante o suficiente para merecer uma revisita futura, assim como ocorreu com Carisma. Talvez, com o tempo, o pântano revele novas formas sob sua superfície turva.

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