Fast Company é um filme que eu nunca associaria a David Cronenberg. Lançado em 1979, estrelado por William Smith, John Saxon, Claudia Jennings e Nicholas Campbell, e roteirizado por Phill Savath, Courtney Smith, Alan Treen e pelo próprio Cronenberg, trata-se de uma obra ambientada no universo do drag racing (corridas de arrancada). Acompanhamos o piloto Lonnie “Lucky Man” Johnson (William Smith), uma estrela veterana do esporte que representa a Fast Company, sua patrocinadora, gerida pelo corrupto Phill Adamson (John Saxon).
Poderíamos dizer que o filme é, ao mesmo tempo, um típico longa de ação e esportes — onde a competitividade e a adrenalina se tornam imperativos.
É curioso notar o quanto esse tipo de filme segue fórmulas semelhantes. Temos quase sempre a mesma composição: o mestre ou veterano, o novato talentoso (ainda imaturo) que está destinado a substituí-lo, o antagonista mefistofélico (corrupto e corruptor) e os rivais que oscilam entre impulsos de violência e respeito. Ao assistir ao filme, logo me vieram à mente Rocky (John G. Avildsen, 1976), A Cor do Dinheiro (Martin Scorsese, 1986), Top Gun (Tony Scott, 1986) e Velozes e Furiosos (Rob Cohen, 2001).
Esses filmes não inventaram a roda, evidentemente. A estrutura que seguem é a mesma das histórias heroicas que conhecemos desde as narrativas da Antiguidade. Há ecos de Hércules, Aquiles, Odisseu, Édipo e Héracles em seus protagonistas.
O fato de esse filme ser dirigido por Cronenberg é o que mais me intriga — e, de certo modo, o que me faz admirá-lo ainda mais.
David Cronenberg é, antes de tudo, um artista pós-moderno — desde o seu primeiro filme.
O artista pós-moderno é, via de regra, anticlássico por excelência. Nos termos de Jean-François Lyotard, o pós-modernismo desconfia das metanarrativas e dos ideais universais como “progresso” (muitos, inclusive, são antimarxistas), “verdade absoluta” e “pureza artística”, reduzindo o passado à ironia, à paródia e ao pastiche. Com frequência, associa-se a arte pós-moderna ao feio, ao disforme, ao híbrido — não sem razão.
Uma das características mais marcantes do pós-modernismo de Cronenberg é justamente o hibridismo e a apropriação. O próprio body horror que ele desenvolveu parte de uma noção pós-moderna de desconstrução e reconfiguração do corpo.
No entanto, vemos aqui um Cronenberg que dirige, roteiriza e idealiza um filme que não apenas transborda estrutura clássica, mas que também se apropria, sem pudor, do universo do entretenimento americano — uma paixão honesta e não intelectualizada por carros, velocidade, competição e adrenalina. Algo que um típico pós-moderno rejeitaria com desdém.
Fast Company é, portanto, uma anomalia fascinante dentro da obra de Cronenberg. Não por destoar de sua estética ou negar seu lugar como artista pós-moderno, mas justamente por revelar que a pós-modernidade não precisa ser niilista, fria ou irônica o tempo todo.
Aqui, Cronenberg parece experimentar uma versão despojada de si mesmo — rejeitando a corrosão das grandes narrativas e, ao mesmo tempo, se divertindo com isso.
