The Ugly Stepsister (A Meia-Irmã Feia) é um filme norueguês de 2025 que reinterpreta o conto clássico da Cinderela sob uma perspectiva grotesca e voltada para o horror corporal.
Diferente da narrativa tradicional, o centro da história não é Cinderela, mas sua meia-irmã Elvira — uma jovem insegura e obcecada pela beleza, disposta a fazer qualquer coisa para conquistar o príncipe e salvar sua família da falência.
Ciente de que não possui a mesma aparência das outras pretendentes (inclusive Cinderela), Elvira, incentivada por sua mãe ambiciosa, Rebeca, inicia um processo de transformação. Começa com aulas de dança e etiqueta, mas logo parte para medidas cada vez mais extremas: ingere uma tênia para emagrecer, submete-se a cirurgias e implantes agressivos e, em uma cena inspirada na versão dos Irmãos Grimm, chega a mutilar os próprios dedos para que o sapatinho de cristal lhe sirva.
Essas cenas de horror corporal são intensas e perturbadoras, funcionando como uma crítica direta à busca autodestrutiva pela aceitação social e estética. O filme dialoga e até supera A Substância (2024), de Coralie Fargeat, pois dá maior destaque à responsabilidade pessoal — mostrando a mulher como agente de suas próprias escolhas, e não apenas como uma vítima das imposições de uma “sociedade masculina” – em suma, tratando-a como adulta, não ignorando as contingências.
The Ugly Stepsister também aborda, com força, o tema da maternidade disfuncional. Rebeca é retratada como uma mulher dominada pela ambição e pela ganância, que vê nas filhas instrumentos de ascensão social. Essa relação distorcida entre mãe e filha intensifica o caráter trágico da narrativa, e é reforçada pela estética do filme — que combina elementos grotescos e rococós — e pela esquisita trilha sonora composta por Vilde Tuv que combina música clássica, italo disco e o synth-pop dos anos 1980. Essa influência musical contrasta propositalmente com a ambientação de época, acentuando o tema da deformação e da desordem — a sensação de que algo está fora do lugar. Essa escolha lembra a abordagem de Sofia Coppola em Marie Antoinette, que usou trilhas de rock e pop moderno para romper com a rigidez de uma história histórica.
Em resumo, The Ugly Stepsister é uma reflexão incisiva sobre o preço da beleza e sobre a herança emocional transmitida de mãe para filha. Ao combinar horror corporal, crítica social e elementos anacrônicos, o filme transforma o conto de fadas em um espelho distorcido da inveja, da ambição e do ódio ao que é naturalmente belo.