Ningen (人間, ou “humano”) é o segundo álbum da banda japonesa 385, um trio originário de Okinawa formado por Miya (baixo e vocal), Tengan (bateria) e Masayuki Hasuo (teclado).
A primeira coisa que me chamou a atenção foi a capa, que traz a figura de Rangda — a “rainha demônio” dos leyaks, entidades do folclore tradicional balinês — em posição de destaque, acompanhada, curiosamente, pelas figuras de Cleópatra e Júlio César no canto inferior. A escolha dessa tríade parece deliberadamente desconexa, mas, semioticamente, podemos notar uma justaposição de opostos: caos e ordem, Oriente e Ocidente, deuses e humanos.
No contexto da arte ocidental, o experimentalismo costuma carregar uma carga política explícita. Movimentos como o futurismo geralmente se associam ao nacionalismo e ao militarismo de direita. Já o surrealismo, por sua vez, costuma estar enraizado nas críticas da esquerda ao racionalismo burguês. A ruptura estética, nesses casos, vem acompanhada de um projeto ideológico — fascista ou anarquista.
No Oriente, especialmente no Japão, o experimentalismo percorre um caminho distinto. Ali, o gesto transgressor tende a dialogar menos com o discurso político direto e mais com o absurdo, o grotesco e o espiritual. Ele se articula a partir de outra lógica: a do humor anárquico, da intensidade sensorial e do horror como expressão de uma certa ontologia do caos.
Ningen é, em sua forma e conteúdo, a expressão musical desse ethos.
Rangda, figura central da capa, é um símbolo evidente desse universo. No teatro balinês, ela representa o caos, a doença, a morte — forças destrutivas que desafiam a ordem estabelecida. Sua presença na arte do disco não é apenas estética; ela simboliza um som que rejeita a linearidade, o conforto e a harmonia previsível.
É desse caldo simbólico que o 385 parece emergir: um caos ritualizado, uma desordem sacra.
Musicalmente, o disco mistura, de forma destemperada e passional, uma variedade de gêneros: Jazz-Punk, Art-Punk, Hardcore, Pós-Hardcore, Zolo, Noise Rock, Funk, Brutal Prog — e muitas outras sonoridades que talvez ainda nem tenham nome.
As 11 faixas que o compõem são marcadas por distorções agressivas, vocais gritados, estruturas não lineares, dinâmicas contrastantes e uma energia que oscila entre a violência e a euforia.
Mas talvez o aspecto mais radical de Ningen seja a ausência completa de guitarras. O baixo de Miya — distorcido, slappeado, percussivo, agressivo — ocupa esse espaço com tanta força que a guitarra simplesmente não faz falta. É ele quem sustenta o peso, a densidade e o groove, enquanto teclado e bateria traçam caminhos imprevisíveis.
Se há uma palavra que descreve o som do 385, é: caótico.
Se houver espaço para outra: espiritual.
Destaques do disco? “Butuyoku Society”, “Makkani Moeteiru Taiyou ga Otirunowo Miteita” e “Freedom” — faixas que revelam o quanto a música experimental japonesa pode ser radical, imprevisível e tão incômoda quanto interessante.