Máscara de Cera (1997), dirigido por Sergio Stivaletti — especialista italiano em efeitos especiais — é um filme de terror gótico que carrega em seu DNA a marca de dois mestres do horror italiano: Dario Argento, responsável pela história, e Lucio Fulci, que adaptou o roteiro.
Fulci faleceu dois anos após o início do projeto, deixando lacunas narrativas que foram preenchidas por Stivaletti — que, não por acaso, priorizou cenas pensadas para valorizar seus efeitos especiais.
O resultado é uma obra híbrida, tensionada entre visões artísticas distintas.
A trama se passa em Roma, onde um museu de cera está prestes a ser inaugurado. Sua proposta macabra: recriar assassinatos famosos (reais ou lendários) com hiper-realismo, tornando-se a nova atração da cidade.
No entanto, conforme o artista finaliza suas últimas peças, desaparecimentos misteriosos coincidem com o surgimento de novas figuras no acervo.
A dinâmica entre Stivaletti, Fulci e Argento foi tão produtiva quanto conflituosa. Fulci defendia um terror atmosférico; Argento, por sua vez, preferia o gore.
A premissa não é original, mas ainda assim é instigante.
Os efeitos práticos — como era de se esperar — são o grande destaque, embora por vezes revelem um certo artificialismo.
A execução, no entanto, sofre com o amadorismo do elenco e um roteiro desigual — problema comum em projetos reescritos por múltiplas mãos.
Apesar dos tropeços, o saldo final é positivo. Concordo com a Variety, que elogiou o filme como “um retorno divertido ao estilo das produções Hammer dos anos 1960” e “uma homenagem ao terror vintage cafona”.
Durante a sessão, senti mais excitação do que medo.
O terror italiano, afinal, reflete a própria alma do país: excessivo, pomposo, e capaz de transitar do sublime ao kitsch em questão de segundos.
Sob uma ótica “pagliana” (em referência a Camille Paglia), a Itália é síntese entre Santa Rita de Cássia e Pasolini de Salò ou os 120 Dias de Sodoma, entre Calígula e São Francisco de Assis — entre a perfeição cristã da piedade e pobreza e a depravação absoluta do sexo, luxo e violência. Esse dualismo respinga neste filme — e, pensando bem, até as atuações exageradas podem ser vistas menos como um defeito e mais como reflexo de uma mistura entre a pomposidade barroca e a caricatura cômica de um jornal sensacionalista.
No fim das contas, Máscara de Cera é um tributo ao pior — e ao melhor — do cinema italiano.