Krishnanda foi o primeiro e único álbum de Pedro Santos, também conhecido como Pedro Sorongo, lançado em 1968. É, provavelmente, o melhor disco da música brasileira.
Talvez você nunca tenha ouvido falar dele, pois, desde o seu lançamento, o álbum (e o artista) permaneceu numa espécie de limbo.
Isso se deve a vários fatores. Em primeiro lugar, Pedro Sorongo era, aos olhos da indústria, um completo “zé ninguém”.
Não teve formação musical formal, não convivia com grandes nomes que pudessem apadrinhá-lo, tampouco tinha acesso a empresários influentes.
O que possuía era uma criatividade singular, um domínio empírico extraordinário dos ritmos e compassos e alguns amigos que lhe deram acesso ao estúdio de gravação.
Quando digo que ele era um “zé ninguém”, não me leve a mal.
Pedro Sorongo foi um dos nossos heróis vergonhosamente pouco reconhecidos. Um daqueles que serviu como soldado durante a Segunda Guerra Mundial.
Embora existam poucos registros detalhados sobre as batalhas de que participou, sabe-se que integrou a Força Expedicionária Brasileira (FEB), atuando na Itália.
Relatos de companheiros e biógrafos destacam que ele carregava um pandeiro junto ao equipamento militar, tocando para animar os pracinhas nos momentos de folga.
Foi após dar baixa do exército, em 1945, que decidiu mergulhar na carreira artística, aproveitando a disciplina adquirida e os contatos feitos no meio militar para conquistar seus primeiros espaços no rádio.
De volta ao Brasil, seu primeiro emprego foi como porteiro na Rádio Tupi, no Rio de Janeiro.
Estar naquele ambiente permitiu que ele demonstrasse seu talento nos intervalos e se aproximasse dos músicos das grandes orquestras que frequentavam a emissora. Não demorou para deixar a portaria e se tornar percussionista profissional na Orquestra Tabajara, onde permaneceu por décadas.
A gravação de Krishnanda só viria mais de vinte anos depois, em 1968, por meio de um acordo bastante informal com a gravadora CBS.
Hélcio, percussionista do Tamba Trio e então diretor de produção da CBS, reconhecia a genialidade de Pedro e sabia que ele possuía um universo sonoro próprio. Foi ele quem convenceu a gravadora a lhe dar a oportunidade de registrar um trabalho autoral.
Para conferir alguma estrutura comercial àquelas ideias profundamente abstratas, Hélcio convocou o pianista Jota Moraes, do Jongo Trio, para elaborar arranjos de metais e cordas sobre as bases percussivas de Pedro.
Milito deu carta branca a Pedro. O resultado foi um disco que recusava as fórmulas do samba e da bossa nova vigentes, apostando integralmente numa filosofia musical própria, centrada nos timbres inventados pelo próprio Sorongo.
O resultado foi Krishnanda.
A incompreensão estética, a ausência de circulação “nas mãos certas” e o desinteresse da própria CBS, que praticamente não ofereceu suporte promocional ao lançamento, contribuíram para que o disco caísse rapidamente no esquecimento e no ostracismo.
Pedro Sorongo morreu no anonimato, em 1993.
Sua redescoberta só ocorreria já na era digital. No início dos anos 2000, o álbum começou a circular por meio de arquivos digitais e edições piratas na Europa e no Japão. Pesquisadores musicais e DJs internacionais se viram fascinados por aquele som que parecia antecipar tanto o afrobeat quanto certas vertentes da música eletrônica.
Nomes como Madlib, Gilles Peterson e Floating Points passaram a exaltar o disco como uma obra-prima da psicodelia brasileira, o que levou os raros exemplares originais em vinil a atingirem valores de milhares de dólares em sebos e sites de leilão.
Esse interesse global acabou forçando o mercado a revisitar a obra. No Brasil, o produtor Kassin teve papel central nesse processo de revalorização, assinando o texto da contracapa da reedição oficial em vinil lançada pela Polysom, em 2012.
Do ponto de vista estético, trata-se de um disco profundamente experimental, embora não seja hermético. Pelo contrário: há nele uma surpreendente facilidade de assimilação. Não encontramos aqui ritmos excessivamente fragmentados, compassos indecifráveis ou uma busca deliberada e pretensiosa pela dissonância, como frequentemente ocorre em certos experimentalismos estéreis.
O que se apresenta é um groove constante e orgânico, sustentado por uma percussão rítmica clara, de matriz afro identificável, sobre a qual se desenvolvem melodias vocais de grande beleza, frequentemente estruturadas como cantigas populares, como nas faixas Água Viva e Um Só.
Isso, no entanto, não atenua seu caráter radical.
O disco opera a partir de uma lógica de polirritmia e sobreposição de camadas percussivas, reinterpretando sonoridades tribais sob uma perspectiva que pode ser aproximada da psicodelia dos anos 1960, embora não se esgote nessa classificação.
É importante lembrar que Pedro Sorongo também atuava como luthier. Ele não se limitava aos instrumentos disponíveis em estúdio: inventava os seus próprios. E é justamente aí que reside uma das dimensões mais fascinantes do álbum.
Ao longo do disco, surgem estruturas de bambu que produzem timbres ocos e ressonantes, um “berimbau de boca” capaz de gerar modulações vocais insólitas, quase como um sintetizador analógico orgânico, além de chocalhos de água e metais reaproveitados.
Impressiona a maneira como ele consegue sugerir efeitos de eco, delay e espacialidade sem recorrer a recursos eletrônicos sofisticados, apenas por meio do posicionamento dos instrumentos no espaço e da repetição rítmica hipnótica.
No fim das contas, Krishnanda permanece como uma dessas obras que parecem existir fora do seu próprio tempo. Um disco que não dialogou com seu presente, foi ignorado por sua época e só pôde ser compreendido quando o mundo, décadas depois, finalmente alcançou sua frequência.
Há algo de profundamente simbólico nisso. Um músico autodidata, sem lastro institucional, sem apadrinhamento e sem concessões estéticas, foi capaz de conceber uma linguagem sonora própria, radical e, ao mesmo tempo, acessível. Uma música que nasce da matéria bruta do ritmo, da invenção artesanal e da escuta sensível do mundo.
Se hoje o disco é celebrado como precursor, talvez isso diga menos sobre sua intenção e mais sobre sua liberdade. Pedro Sorongo não estava tentando antecipar nada. Ele simplesmente criou sem pedir licença.
E talvez seja justamente por isso que Krishnanda ainda soa tão vivo: porque não pertence a nenhuma escola, a nenhum movimento, a nenhuma fórmula. Pertence apenas a esse raro território onde a música deixa de ser produto e volta a ser descoberta.