Scream 4 é espetacular.
Depois da experiência decepcionante com Scream 3, que dava a sensação de um esgotamento completo da fórmula, eu já esperava o pior. Parecia inevitável que a franquia seguiria em queda, presa às próprias repetições, caminhando lentamente para se tornar uma paródia de si mesma, como acontece com tantos slashers.
Mas o quarto filme faz exatamente o oposto. Em vez de afundar, ele se reorganiza. Reencontra sua identidade e, mais do que isso, consegue reposicioná-la dentro de um novo contexto cultural.
Sob a direção de Wes Craven, há aqui uma retomada consciente do que sempre fez a série funcionar: a metalinguagem, o meta-humor, a inteligência, a vocação crítica e, principalmente, a sua violência.
O filme já me ganhou na abertura. Construída como uma sequência de falsos inícios, quase como uma boneca russa narrativa, ela brinca com camadas de ficção dentro da ficção. O que parece ser o começo “real” do filme se revela como um filme dentro do universo. Depois outro. E mais outro.
Personagens comentam que filmes de horror já não surpreendem mais, que remakes são previsíveis. E o próprio filme responde a isso enganando o espectador repetidas vezes.
Poucas vezes eu vi um filme se divertir tanto com a própria condição. Ele sabe que é sequência. Sabe que é, em certo sentido, um remake. E justamente por isso transforma essa condição em tema, em piada e em crítica.
Enquanto tantos filmes da época apenas repetiam fórmulas, Scream 4 as expõe e ironiza.
Quando finalmente entramos na narrativa principal, essa consciência não desaparece, apenas muda de forma.
Scream 4 retoma a análise das fórmulas e convenções do gênero. O filme deixa suas regras explícitas, mostra como elas funcionam e, em seguida, as desmonta, agora voltando o olhar para a lógica dos remakes e reboots que dominavam o cinema naquele período.
Mas ele não se limita a comentar apenas a indústria cinematográfica. O alcance é mais amplo.
Lançado em 2011, o filme dialoga diretamente com uma transformação cultural em curso: o início de uma lógica de exposição permanente mediada pela internet. As redes sociais começavam a moldar comportamento, identidade e desejo. O Facebook estava no auge, e a busca por visibilidade, curtidas e seguidores passava a se consolidar como valor social. Scream 4 incorpora esse cenário à sua própria narrativa, ampliando sua crítica para além do cinema e alcançando a cultura daquele momento como um todo, tal como já fazia o excelente Scream 2.
Se Scream 2 já falava sobre a espetacularização da violência pelo cinema e pela mídia tradicional, Scream 4 atualiza isso para o digital. Não são mais apenas filmes e televisão que transformam assassinos em figuras públicas. Agora são câmeras de celular, vídeos circulando, posts no Facebook, a busca constante por atenção.
Nesse sentido, o filme é quase premonitório. Ele antecipa a cultura dos influencers, onde visibilidade vira valor em si, e onde até a violência pode ser instrumentalizada como forma de alcançar reconhecimento.
Ghostface volta a ser uma presença realmente ameaçadora. Depois de um terceiro filme em que parecia quase um palhaço, marcado por tropeços cômicos, aqui ele se move nas sombras com rapidez, precisão e uma frieza impessoal.
A violência do filme também merece destaque. Este é o capítulo mais brutal desde o original. A câmera não recua, não suaviza.
A morte de Olivia é o exemplo mais marcante. Ghostface a ataca com vários golpes e, quando Sidney entra no quarto, encontra o corpo destruído sobre a cama, com as entranhas expostas. É, até ali, o momento mais gore da franquia, e ainda hoje muitos consideram o mais brutal. A cena não suaviza nada: sangue por todo lado, vísceras à mostra, um horror direto e físico.
Por isso, Scream 4 funciona tão bem. Ele é, ao mesmo tempo, um retorno à forma e uma atualização de sentido. Um filme que respeita o original, mas não se limita a ele. Que entende o próprio lugar dentro de uma franquia e dentro de uma indústria saturada de remakes e sequências, e usa isso a seu favor.
No fim, saí com a sensação de que a série não só se recuperou, mas encontrou um novo fôlego.
Scream 4 é um comentário lúcido sobre a própria sobrevivência da franquia e, ao mesmo tempo, sobre a capacidade do horror de se reinventar em um mundo obcecado por imagens, repetição e exposição.
