Ritual, do Shaman, foi um dos discos que mais ouvi quando ainda estava engatinhando no metal. É curioso perceber como ele também ocupa um lugar muito forte na memória de muitas pessoas da minha geração. Há algo de significativo no fato de um disco de heavy metal brasileiro ter conquistado esse tipo de espaço afetivo.

O álbum foi gravado majoritariamente por ex-membros do Angra: André Matos (vocal e teclado), Luis Mariutti (baixo) e Ricardo Confessori (bateria). A exceção é o guitarrista Hugo Mariutti, irmão de Luis, que não havia feito parte da formação do Angra. Na época, havia uma expectativa enorme e uma torcida bastante apaixonada por André Matos e pelos irmãos Mariutti após a separação da banda. A produção ficou a cargo do renomado produtor alemão Sascha Paeth, conhecido por seu trabalho com grupos como Angra, Edguy e Avantasia.

A faixa “Fairy Tale” deste disco ganhou enorme popularidade no Brasil ao ser incluída na trilha sonora da novela O Beijo do Vampiro, da Rede Globo. Curiosamente, é a música de que menos gosto no disco, mas ainda assim fico feliz que ela exista. Funciona como uma espécie de “faixa vitrine”: muito acessível e de assimilação imediata. É fácil gostar dela na primeira audição, embora também seja fácil cansar um pouco depois. Ainda assim, ter “Fairy Tale” em uma novela das sete colocou o heavy metal na sala de estar de famílias que muitas vezes nem sabiam o que era o gênero. Para muitos jovens, aquilo acabou funcionando como uma porta de entrada bastante amigável.

Musicalmente, trata-se de um disco de power metal melódico com elementos sinfônicos, cinematográficos e até étnicos. O heavy metal, especialmente em sua vertente mais melódica, vivia naquele momento um período bastante propício para o surgimento de trabalhos com esse tipo de ambição estética, marcada por certo exagero e uma dose considerável de pompa. Como diz a letra de “For Tomorrow”, there was something in the air. Bandas como Nightwish, Rhapsody e Stratovarius, goste-se ou não delas, tinham acabado de demonstrar que o metal podia operar em uma escala mais ampla.

O Shaman absorveu essa estética, mas acrescentou uma identidade brasileira e chegou a algo que, para mim, soa mais orgânico, mais “aterrado”, mais telúrico e mais órfico. O uso de flautas e pianos, em vez de orquestrações constantes, cria zonas de respiro mais comedidas. O piano de André Matos tem no disco uma espécie de “respiração” clássica, abrindo momentos de silêncio e introspecção. O álbum não tenta esmagar o ouvinte com grandiosidade o tempo todo.

As músicas também nem sempre seguem a velocidade frenética típica do power metal. Algumas, como “Distant Thunder”, poderiam estar perfeitamente em um disco do Iron Maiden da fase posterior a Brave New World, com introduções progressivas e um andamento mais cadenciado, menos saturado que o de um Stratovarius, por exemplo.

Outro aspecto que sempre me chamou atenção é que as músicas são realmente muito diferentes entre si. Em muitos discos de power metal, e até de metal extremo, as faixas acabam presas a uma fórmula relativamente rígida e, em certos momentos, começam a se confundir. Aqui isso não acontece.

“Here I Am” tem uma identidade própria. “Distant Thunder”, com sua abertura quase à la Maiden, também. “For Tomorrow”, minha favorita, segue um caminho mais próximo do folk. “Time Will Come” retoma parcialmente a energia da segunda faixa. “Over Your Head”, talvez minha segunda preferida, mistura o clima folk de “For Tomorrow” com uma inspiração progressiva bem clara. Talvez só não seja tão progressiva quanto a faixa-título, “Ritual”, que muita gente diz não gostar, embora eu adore.

E assim por diante. Basta ouvir “Blind Spell”, por exemplo, que traz uma orientação extremamente oitentista, próxima do AOR.

E, sim, para quem gosta de power metal, especialmente de Helloween, o disco tem o que eu gosto de chamar de “uma das melhores músicas do Helloween que não é do Helloween”: “Pride”. É o tipo de faixa que se encaixaria como uma luva em um disco como Better Than Raw.

No fim das contas, é justamente essa diversidade de texturas que impede Ritual de cair na monotonia que acabou derrubando muitas bandas de power metal daquela mesma safra.

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