The Romantic, novo disco de Bruno Mars, é exatamente o tipo de trabalho que deveria figurar com naturalidade em qualquer lista de melhores do ano. E não por reinventar a roda ou propor alguma ruptura estética radical, mas justamente pelo contrário.
Não é preciso exigir de um TOP 10 apenas obras experimentais ou excessivamente inovadoras. Há espaço, ou ao menos deveria haver, para discos como este: inofensivos, seguros, altamente radiofônicos, com canções que orbitam a média de três minutos e meio e letras ancoradas em um romantismo assumidamente clichê.
The Romantic se constrói a partir de uma combinação bastante reconhecível de R&B, pop, bolero e um soul que remete diretamente à tradição da Motown. Nada aqui é exatamente novo, mas tudo é executado com precisão, consciência estética e, sobretudo, senso de forma.
É justamente nesse ponto que o disco ganha relevância. Em um cenário mainstream dominado por batidas secas, repetitivas e pela lógica quase industrial do hip-hop contemporâneo, a presença de arranjos elaborados de cordas, metais em estilo mariachi e percussões de matriz caribenha soa como um respiro. Há também algo quase raro na forma como Bruno Mars canta: limpo, direto, sem a dependência excessiva de auto-tune, evocando uma linhagem que remonta ao soul clássico.
Em condições normais, um disco como The Romantic estaria onipresente, tocando à exaustão em rádios, playlists e espaços públicos. No entanto, o contexto atual parece operar sob outra lógica. Em meio a uma paisagem sonora saturada por texturas sintéticas e por uma estética cada vez mais artificializada, o álbum acaba adquirindo um peso que, em outro momento, talvez não tivesse.
Mais do que um simples conjunto de boas canções, The Romantic soa, em certa medida, como um gesto de resistência. Há nele uma defesa implícita do orgânico, do arranjo bem construído, da interpretação vocal como elemento central. Nesse sentido, o disco ultrapassa sua própria proposta e se projeta como um pequeno manifesto em favor de uma ideia mais humana de música pop.
É o contexto, portanto, que o eleva. E é justamente por isso que, sem precisar ser extraordinário, The Romantic acaba se impondo como um dos lançamentos mais relevantes do ano.