My Ghosts Go Ghost é o álbum de estreia da dupla americana By Storm, lançado em 30 de janeiro de 2026 pela deadAir Records.
By Storm é, na verdade, a continuação de um dos grupos mais influentes da última década: o Injury Reserve. Acredito que vale a pena retomar um breve histórico do grupo.
Formado em 2013, no Arizona, o grupo surgiu como um trio composto pelos rappers Stepa J. Groggs e Nathaniel Ritchie, conhecido como Ritchie with a T, ao lado do produtor Parker Corey.
Desde o início, chamaram atenção pela forma singular como articulavam jazz-rap, texturas industriais e experimentações sonoras mais agressivas, consolidando uma identidade estética própria dentro do gênero.
Essa trajetória, porém, foi abruptamente interrompida em junho de 2020, quando, durante o processo de criação do que viria a ser seu trabalho mais celebrado, Stepa J. Groggs faleceu aos 32 anos. A causa da morte não foi divulgada publicamente. Devastados, Nathaniel e Parker decidiram concluir o disco como gesto de homenagem e, ao mesmo tempo, como forma de elaboração da perda.
O resultado desse processo foi o lançamento, em 2021, do álbum By Storm, ainda sob o nome Injury Reserve.
By Storm era uma obra profundamente atravessada pelo luto, em que a experimentação formal servia como expressão direta da ausência.
Naquele momento, os integrantes remanescentes deixaram claro que o Injury Reserve, enquanto trio, havia chegado ao fim, já que Groggs era, para eles, insubstituível.
No entanto, foi apenas em 2023 que Nathaniel e Parker oficializaram esse encerramento, anunciando a “aposentadoria” definitiva do nome Injury Reserve.
Ainda assim, a parceria criativa permaneceu. O novo projeto passou a se chamar By Storm, nome extraído da última faixa do último álbum do grupo anterior.
Essa mudança estabeleceu, espiritualmente, uma linha divisória importante: se o Injury Reserve pertence à era compartilhada com Groggs, By Storm representa a tentativa de construir um novo capítulo sem apagar a memória do que veio antes.
É precisamente nesse ponto que My Ghosts Go Ghost se torna tão significativo.
O álbum é o primeiro grande trabalho dessa nova fase e simboliza o momento em que a dupla deixa de apenas habitar a ausência do amigo para começar a elaborar uma identidade artística autônoma.
Essa transformação se manifesta de maneira direta na linguagem sonora do disco. Trata-se de um trabalho em que o experimentalismo é ainda mais intensificado e atravessado por influências da música eletrônica e da neo-psicodelia.
Ao contrário do hip-hop tradicional, o foco aqui não está na centralidade da batida ou na organização rítmica convencional, mas na criação de paisagens sonoras. O uso intenso de delay, reverb e glitch faz com que a voz de Nathaniel Ritchie soe, muitas vezes, como se estivesse ecoando em outra dimensão, dissolvida em camadas de efeitos diversos, tornando-se parte de um tecido emocional fragmentado.
Raramente encontramos o esquema clássico de verso e refrão. As músicas se desenvolvem de forma abstrata, frequentemente deslocando-se para territórios muito diferentes daqueles em que começaram.
Em vários momentos, o disco se aproxima até mesmo do free jazz, especialmente pela forma como as camadas de sons orgânicos e sintéticos parecem se expandir e colidir entre si.
Por isso, é importante dizer com franqueza: este não é um álbum de assimilação imediata. Se você não está acostumado com esse tipo de experimentação, você provavelmente achará o disco tedioso.
Quem procura groove, refrões memoráveis ou uma batida dançante encontrará aqui um obstáculo.
No entanto, o desconforto não é acidental; ele constitui o próprio núcleo conceitual do disco.
A desorientação sonora opera como metáfora do luto (sim, um luto que já dura 5 anos).
O álbum procura expressar, de maneira visceral, o processo de decifração e metamorfose da perda, deslocando-se da dor paralisante para uma forma possível de convivência com os fantasmas do passado.
O disco lida constantemente com a tensão entre honrar a memória do amigo e não permanecer aprisionado a ela.
Ao mesmo tempo, uma nova camada emocional atravessa o álbum: Nathaniel tornou-se pai recentemente. O trabalho explora justamente o choque entre a experiência da morte e a chegada de uma nova vida, produzindo a sensação paradoxal de estar diante do prólogo e do epílogo da existência ao mesmo tempo.
A faixa de abertura, “Can I Have You For Myself?”, explicita isso ao introduzir um tipo distinto de luto: a perda da exclusividade afetiva na relação com a parceira após o nascimento do filho. Nesse sentido, o disco sugere que o luto nunca acontece em isolamento. Ele se desenrola em meio às transformações da vida adulta, coexistindo com outras questões da vida.
Em “Dead Weight”, por exemplo, a perda surge como um peso arrastado por anos, traduzido por uma produção fragmentada e exaustiva, que materializa sonoramente o desgaste emocional do luto prolongado.
O álbum também toca em uma questão mais íntima: o medo de perder a própria identidade vinculada à memória do falecido.
Até mesmo um gesto aparentemente banal, como Nathaniel cortar o cabelo após anos usando-o longo e desgrenhado como espécie de armadura simbólica, ganha força metafórica. A mudança física passa a representar o temor de abandonar a versão de si mesmo moldada pela dor, como se isso implicasse deixar o fantasma partir.
Ainda assim, o disco não termina no puro desamparo. Ao final, emerge uma sensação de paz arduamente conquistada.
Os fantasmas não desaparecem, mas deixam de ocupar o lugar de ameaça para se tornarem parte constitutiva da história da dupla. O luto, portanto, não é resolvido; ele é incorporado.
É justamente por isso que o álbum se mostra tão coeso. Sua forma sonora, sua estrutura fragmentária e seu desconforto deliberado não são escolhas gratuitas, mas extensões diretas do tema que o atravessa.
Não vou me alongar muito em cada música, pois cada uma delas representa um universo próprio de expressão, que não encontra outra forma de se manifestar que não seja pelo ruído misturado com a música.
Quando a dupla desconstrói as batidas até que elas se aproximem do ruído puro, ela está convidando o ouvinte a partilhar da mesma desorientação emocional que Nathaniel expressa nas letras.
No fim, trata-se de um álbum que opera pela lógica do anti-prazer imediato para alcançar uma conexão afetiva mais profunda. Quem busca o hip-hop pela batida talvez se frustre; quem busca catarse estética encontrará aqui um trabalho de enorme força emocional e conceitual.