Valor Sentimental é um drama norueguês dirigido por Joachim Trier, lançado em 2025.
O filme acompanha as irmãs Nora (Renate Reinsve) e Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas), que se reencontram com o pai distante, Gustav (Stellan Skarsgård), um carismático diretor de cinema outrora renomado, afastado das filmagens há quinze anos. Gustav propõe a Nora, atriz de teatro, o papel principal em seu filme de retorno, uma obra explicitamente inspirada na própria história da família. A recusa de Nora faz com que o papel seja oferecido a uma jovem estrela de Hollywood, interpretada por Elle Fanning. A partir desse gesto, memórias, conflitos e feridas antigas emergem, colocando à prova o já frágil equilíbrio familiar.
O filme foi amplamente aclamado pela crítica e recebeu diversos prêmios, entre eles o Grand Prix no Festival de Cannes de 2025 e o Globo de Ouro de Melhor Ator Coadjuvante para Stellan Skarsgård. Também foi a escolha da Noruega para a categoria de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2026, acumulando nove indicações no total.
Trata-se de um drama familiar profundo, íntimo e sustentado por atuações notáveis, que investiga como traumas e silêncios do passado continuam a moldar o presente, mesmo quando se acredita que já foram superados.
Um dos aspectos mais interessantes de Valor Sentimental é a maneira ambígua com que aborda o papel da arte. Gustav é alguém que só consegue acessar e elaborar seus próprios dramas por meio da criação artística. Seus roteiros funcionam como substitutos afetivos, tentativas tardias de exercer o papel de pai que ele negligenciou na vida concreta. Para ele, criar filmes não é apenas uma vocação, mas a principal forma de relação com o mundo e com as pessoas ao seu redor.
Essa ambiguidade se revela justamente no limite dessa estratégia. Se, por um lado, a arte permite que Gustav expresse sentimentos que ele nunca soube verbalizar diretamente, por outro, ela também se impõe como um filtro que empobrece sua percepção do outro. Gustav só conhece as filhas através da lente do seu “eu diretor”. Ele as observa, interpreta e reorganiza como personagens, nunca como sujeitos plenamente autônomos. A arte traduz o mundo para ele, mas também o aprisiona dentro de uma gramática que reduz a complexidade da vida ao enquadramento, ao roteiro, à cena.
É nesse ponto que o filme se torna especialmente honesto. Valor Sentimental não trata a arte como uma solução redentora ou como uma linguagem absoluta. Pelo contrário, há momentos em que a própria obra parece se denunciar como insuficiente. A arte não é uma panaceia da expressão, do significado ou da verdade. Ela falha, escapa, distorce. Ainda assim, permanece necessária. Para certos indivíduos, talvez seja a única forma possível de diálogo com a própria existência. Como diria Ortega y Gasset, consigo mesmo e com suas circunstâncias.
O desejo de Gustav de fazer um filme com a participação das próprias filhas é, nesse sentido, uma tentativa desesperada de instaurar uma conversa franca que ele não conseguiria sustentar em uma situação ordinária. O set de filmagem se torna um espaço intermediário, onde a intimidade pode existir desde que mediada pela ficção. Não é um gesto inocente, mas revela uma limitação emocional profunda, a incapacidade de se relacionar sem transformar o outro em material artístico.
Essa temática encontra eco em outro filme marcante do mesmo período, Hamnet. Nele, Shakespeare recorre à escrita teatral como forma de elaborar o luto pela morte do filho, ocorrida enquanto ele estava ausente. A peça surge como um gesto cifrado de despedida, uma tentativa de dizer aquilo que não poderia ser dito diretamente. Assim como Gustav, Shakespeare só consegue se aproximar da dor real por meio da representação.
Há, em Valor Sentimental, um exercício sofisticado de metalinguagem, em que vida pessoal e vida representada se confundem e se atravessam constantemente. Essa sobreposição não é apenas formal, mas temática. O filme articula com precisão a ideia da arte como elemento purgativo das experiências reais do artista, ao mesmo tempo em que evidencia seu caráter limitador. A arte cura, mas também distancia. Revela, mas enquadra. E talvez seja exatamente nessa tensão, jamais resolvida, que reside a força do filme.