First Meeting: Live at Dizzy’s Club é o registro ao vivo de um encontro entre quatro figuras centrais do jazz contemporâneo: o pianista Gonzalo Rubalcaba, o saxofonista Chris Potter, o contrabaixista Larry Grenadier e o baterista Eric Harland.

Embora Rubalcaba figure como líder nominal do projeto, o quarteto é formado por músicos que, em seus próprios contextos, ocupam posições de liderança artística. Em princípio, essa concentração de protagonismos poderia resultar em disputa ou dispersão. Afinal, a simples reunião de instrumentistas excepcionais não garante coesão musical. O que se ouve aqui, porém, é a suspensão consciente do exibicionismo em favor de um compromisso mais alto com a música. Cada músico afirma sua identidade, assume seus momentos de destaque e explora livremente o improviso, mas sempre dentro de um entendimento coletivo que preserva a integridade do conjunto. Nenhuma voz se impõe a ponto de rasgar o tecido comum que sustenta o quarteto.

É nesse ponto que o jazz revela uma de suas características mais fascinantes. Trata-se de uma música em que a ordem não é imposta de fora, mas surge de dentro, da tensão permanente entre forças distintas. A beleza do jazz não está na eliminação do conflito, mas na sua transfiguração. Quando o gênero é reduzido ao clichê de que “cada músico toca uma música diferente”, isso costuma revelar mais uma escuta superficial do que um problema do próprio jazz. O bom jazz se constrói justamente na fricção entre individualidade e coordenação. A ordem emerge de forma espontânea, quase inevitável, como se fosse uma propriedade natural do sistema.

Nesse sentido, o jazz funciona como um microcosmo da própria estrutura da natureza. Elementos que parecem dissonantes, quando observados isoladamente, passam a revelar uma coerência profunda quando vistos a certa distância. Assim como em sistemas naturais complexos, a harmonia não se dá pela homogeneidade, mas pelo ajuste dinâmico entre diferenças. Há aqui uma lógica impressionista: de perto, o gesto individual; de longe, a forma total.

Em First Meeting, existem eixos claros que constantemente reconduzem os músicos a um terreno comum. Esses pontos de convergência não funcionam como limites rígidos, mas como centros gravitacionais que permitem que cada um se afaste, explore caminhos próprios e, depois, retorne. É nesse movimento de afastamento e retorno que a música ganha vida.

O repertório reflete bem essa ideia. O álbum reúne composições originais de todos os integrantes, ao lado de releituras de clássicos do jazz que funcionam como verdadeiros pontos de encontro simbólicos. “500 Miles High”, de Chick Corea, e “Con Alma”, de Dizzy Gillespie, cumprem esse papel com especial eloquência. A escolha de “Con Alma” é particularmente significativa, já que Rubalcaba tocou essa música com o próprio Gillespie em Havana, em 1985.

Vale olhar com mais atenção para cada um dos integrantes. Gonzalo Rubalcaba, nascido em Havana, possui uma força pianística prodigiosa. Sua formação está profundamente enraizada tanto na música clássica europeia quanto nos ritmos afro-cubanos, especialmente a música folclórica e o mambo, aliados a um domínio pleno do vocabulário do jazz americano. Suas influências incluem Bill Evans, Herbie Hancock, Chick Corea e, de modo crucial, Dizzy Gillespie. Ao mesmo tempo, seu fraseado carrega ecos claros de Chopin e Franz Liszt, sobretudo na expressividade virtuosa e na construção de climas dramáticos e tempestuosos.

Chris Potter é um dos saxofonistas mais influentes e tecnicamente sofisticados de sua geração. Sua linhagem passa por John Coltrane, Michael Brecker, Joe Henderson e Wayne Shorter, mas não se limita a eles. Potter incorpora elementos da música clássica do século XX, do rock progressivo e até da música eletrônica, resultando numa paleta harmônica e rítmica extremamente ampla. No quarteto, ele frequentemente assume o papel da voz mais incisiva e cromaticamente ousada, sem jamais se impor de forma desagregadora.

Larry Grenadier, por sua vez, é um dos contrabaixistas mais respeitados e requisitados da atualidade. Membro de longa data do trio de Brad Mehldau, seu fraseado melódico revela a influência de Scott LaFaro, Dave Holland, Charlie Haden e Paul Chambers. Essa herança faz com que seu diálogo com o piano seja especialmente refinado. Grenadier é capaz de alternar entre uma doçura melancólica e uma intensidade quase eruptiva, sempre com grande senso de forma.

Eric Harland completa o quarteto como um dos bateristas mais criativos e versáteis do jazz contemporâneo. Suas influências incluem Elvin Jones, Tony Williams e Jack DeJohnette, mas vão além do jazz tradicional, incorporando elementos do gospel, do fusion e do R&B. Mesmo nas abordagens mais sutis, Harland é sempre audível, não como um exibicionista rítmico, mas como um arquiteto do tempo. Ele organiza fluxos, cria tensões, dissolve métricas e reconstrói o pulso sem jamais perder o sentido coletivo.

O título First Meeting refere-se ao fato de que o quarteto, nessa formação específica, nunca havia tocado junto antes. Ainda assim, o nível de escuta profunda e de resposta em tempo real é impressionante. O virtuosismo individual, longe de se tornar um obstáculo, funciona como um meio de ampliação do diálogo.

A experiência do disco lembra uma mesa de amigos conversando, cada qual em um idioma distinto, mas alcançando um entendimento quase milagroso. A comunicação acontece num nível anterior às palavras, ou, no caso, às notas. Há algo de profundamente humano e, ao mesmo tempo, de misteriosamente ordenado nesse processo.

Entre as composições originais, ouvimos “State of the Union”, de Larry Grenadier, “Eminence”, de Eric Harland, “Oba”, de Chris Potter, e “Santo Canto”, de Gonzalo Rubalcaba. Cada faixa reforça a ideia de que a unidade do disco não depende de uma homogeneidade estética, mas da capacidade do grupo de transformar diferenças em estrutura.

Ao longo do álbum, Rubalcaba constrói drama e tensão por meio de harmonias clássicas, incursões pelo flamenco, pelo bebop e pela música latina. Harland mapeia ritmos complexos, alternando entre bases suaves e grooves mais intensos. Grenadier sustenta e tensiona o espaço harmônico, ora com delicadeza introspectiva, ora com energia quase vulcânica. Potter, por sua vez, colore o conjunto com linhas melódicas agudas e expressivas. Todos sabem exatamente quando assumir o protagonismo e quando se recolher às camadas de sustentação.

Em última instância, First Meeting oferece a impressão constante de um quarteto que escuta profundamente e constrói arquiteturas musicais em tempo real. O jazz, aqui, se revela não apenas como um gênero musical, mas como uma metáfora estética, filosófica e até teológica: uma arte em que a ordem não nega a tensão, mas nasce dela. Uma música que sugere que o caos aparente, quando atravessado por escuta, atenção e abertura ao outro, pode se organizar em uma forma plena de sentido.

Escute aqui.

 

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