The Revenge of Alice Cooper foi um dos lançamentos que eu mais aguardei nos últimos anos. Não é segredo para ninguém que sou fã de Alice Cooper, a ponto de encontrar valor até mesmo em suas fases mais negligenciadas, como o período New Wave do início aos meados dos anos 80, tantas vezes rejeitado pelos puristas. Mesmo ali, no terreno plástico e sintético daquela década, Cooper revelava uma inquietação criativa que poucos artistas conseguiram sustentar ao longo de tantos anos.

Sempre o considerei um dos músicos mais inventivos, criativos e inteligentes do rock. Sua mistura de teatralidade, horror e sátira sempre me impactou de um modo muito pessoal, porque ali havia algo que escapava a qualquer classificação simples. Cooper, para mim, entendia como poucos que o rock podia ser moldado como expressão de deboche e de liberdade. Em todas as fases, levava a sério sua música nos discos e seu personagem nos palcos, mas também era lúcido o bastante para rir de si mesmo e se divertir quando precisava. Ele era iconoclasta com tudo, especialmente consigo mesmo.

Por falar em fases, quando penso no melhor momento de sua carreira, não tenho dúvidas: escolho o período setentista anterior ao fabuloso Welcome to My Nightmare. E aqui vale uma observação para quem não acompanha sua trajetória de perto. Ao falar do “Alice Cooper” dessa época, estamos nos referindo à banda Alice Cooper, e não ao artista solo que surgiria depois. Essa distinção é fundamental, porque se trata de uma formação específica, com uma química própria e um modo singular de enxergar o rock. O bom humor e a genialidade de Alice Cooper sempre estiveram presentes em sua carreira, mas nessa fase havia um algo a mais, uma dinâmica que acentuava o caráter de diversão anárquica entre amigos bêbados, “cheirados” e esquisitões.

Meu recorte favorito fica entre Love It to Death, de 1971, e Muscle of Love, de 1973. Não era exatamente Hard Rock, embora com frequência Alice Cooper seja reduzido a isso. Era um Glam Rock híbrido e profundamente eclético, que dialogava com Blues, Jazz, musicais da Broadway, vaudeville, vodu da Louisiana, Rockabilly, trilhas sonoras, Rock Progressivo e até elementos que, anos mais tarde, ecoariam no pós-punk. Havia ali uma liberdade estética rara, típica de um momento em que o rock ainda não havia sido fragmentado por rótulos rígidos e onde cada disco parecia um microcosmo de referências. Essa pluralidade, longe de soar artificial, era parte essencial da banda. Eles transitavam entre estilos porque era divertido fazê-lo, e essa diversão era sempre audível.

Quando The Revenge of Alice Cooper foi anunciado trazendo de volta a formação original, com Alice Cooper nos vocais, Michael Bruce na guitarra, Dennis Dunaway no baixo e Neal Smith na bateria, minha expectativa naturalmente foi às alturas. O álbum também inclui uma participação póstuma de Glen Buxton, guitarrista original, e conta com a produção de Bob Ezrin, figura histórica na arquitetura sonora do grupo. Era como se um pedaço dos anos 70 tivesse sido desenterrado com o máximo de respeito possível.

E foi exatamente isso que encontrei ao ouvir o disco. The Revenge of Alice Cooper resgata a sonoridade clássica da banda, trazendo de volta a energia teatral, o humor perverso e o peso dramático que fizeram do shock rock de Cooper um fenômeno cultural nos anos 70. O álbum soa como um retorno a um tempo em que o rock funcionava como laboratório de mutações estéticas, um espaço onde nada era proibido, desde que fosse cool, e tudo podia ser transformado em espetáculo.

Não há, para mim, um destaque absoluto. O disco funciona pela coesão, pela forma como as faixas se encadeiam e mantêm um mesmo pulso expressivo. Ainda assim, algumas músicas chamaram minha atenção, especialmente Black Mamba, uma abertura certeira, Kill the Flies e What a Syd, cuja atmosfera me remeteu discretamente a Stray Cat Strut da banda Stray Cats.

O fascinante é perceber que o álbum não soa como um exercício de nostalgia ou uma tentativa calculada de ressuscitar glórias passadas. Pelo contrário, ele exala uma alegria genuína, quase juvenil, perceptível na execução das faixas. A beleza do disco está menos na inovação e mais na química inabalável da formação original. Já passa dos setenta anos, mas nenhum deles tenta soar jovem ou moderno. Eles simplesmente abraçam aquilo que sempre os definiu: o shock rock teatral, os riffs de garagem sujos e o senso de humor sombrio, ligeiramente arrogante e deliciosamente exagerado.

A sensação de que a banda está se divertindo em estúdio é nítida em músicas como Kill The Flies e Up All Night. Eles soam relaxados, soltos e plenamente sintonizados, como se o tempo não tivesse passado e como se aquele espírito setentista tivesse apenas cochilado por algumas décadas, aguardando o momento certo para voltar.

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