Pra quem não sabe, eu sou formado em jornalismo.
Na época em que comecei a me interessar pelo tema, o jornalismo me parecia uma aventura fascinante, especialmente porque oferecia a possibilidade de articular várias áreas do conhecimento que sempre me atraíram: atualidades, história, política, investigação e cultura.
Sou generalista por natureza, tenho interesses diversos e gosto de escrever sobre praticamente tudo.
Quando conheci G. K. Chesterton, que também era jornalista, percebi que o ofício poderia unir literatura, filosofia e religião, o que tornou a profissão ainda mais sedutora aos meus olhos.
Com o tempo, no entanto, boa parte desse encanto se perdeu. Passei a perceber que o jornalismo, em grande medida, se resume a articular narrativas e seguir agendas.
Sei que ainda existe jornalismo independente e crítica cultural autêntica, livre de pressões e alinhamentos ideológicos de qualquer lado. Mas minha vontade de me inserir em uma estrutura corporativa desapareceu. Não apenas pelos baixos rendimentos da área, mas também pelo desmonte completo do meu imaginário sobre o que é ser jornalista.
Hoje, virei palpiteiro de rede social e estou bem com isso.
Ainda assim, há momentos em que me pego revisitando com carinho aquela antiga imagem do jornalismo que um dia me inspirou.
Recentemente, essa nostalgia voltou quando assisti novamente ao filme Todos os Homens do Presidente (All the President’s Men, 1976), um clássico que transforma o escândalo de Watergate em um estudo preciso sobre ética, poder e o papel da imprensa diante da corrupção política.
É um dos filmes mais importantes da história do cinema político. O longa narra a investigação jornalística que revelou o caso Watergate, episódio que levou à renúncia do então presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.
Baseado no livro homônimo escrito em 1974 pelos próprios jornalistas Bob Woodward e Carl Bernstein, o filme acompanha a dupla, interpretada por Robert Redford e Dustin Hoffman, em sua obstinada busca pela verdade.
O que começa como a cobertura de uma invasão aparentemente insignificante à sede do Comitê Nacional Democrata, em 1972, logo se transforma em uma investigação complexa e perigosa.
Mesmo enfrentando o ceticismo dos editores do The Washington Post e a pressão direta da Casa Branca, Woodward e Bernstein seguem as pistas com determinação. Contam com a ajuda de uma fonte anônima e misteriosa, o célebre “Garganta Profunda” (Deep Throat), posteriormente revelado como Mark Felt, vice-diretor do FBI, que os guia no desvendamento de uma vasta rede de espionagem e corrupção que envolvia o próprio governo Nixon. O objetivo da invasão era instalar escutas telefônicas e obter documentos que prejudicassem o Partido Democrata, fortalecendo a reeleição presidencial.
Além de seu enredo envolvente, o filme é uma verdadeira aula de linguagem cinematográfica. Embora sustentado por diálogos densos e precisos, Alan J. Pakula, o diretor, constrói uma narrativa visualmente rica, algo que sempre admirei no cinema, outra área que amo.
É impressionante como o poder de síntese da imagem reforça e comenta a narrativa. O uso de planos-detalhe nas máquinas de escrever enfatiza o processo de construção das matérias jornalísticas; a iluminação sombria nas cenas da garagem, onde ocorrem os encontros secretos com Garganta Profunda, simboliza as informações que precisam permanecer nas sombras; e o som das teclas das máquinas de escrever, progressivamente mais intenso, traduz a urgência e a emoção do jornalismo em ação, especialmente no clímax, quando o ruído das teclas se sobrepõe ao som da televisão que exibe a posse de Nixon.
Todos os Homens do Presidente é considerado um dos maiores filmes de investigação já produzidos e um marco do cinema político americano. Foi amplamente elogiado pela crítica, recebendo oito indicações ao Oscar e vencendo em quatro categorias: Melhor Ator Coadjuvante (Jason Robards), Melhor Roteiro Adaptado (William Goldman), Melhor Direção de Arte e Melhor Som.
É um filme impecável, em que técnica, roteiro e interpretação se unem para reafirmar a importância do jornalismo, embora hoje muito desacreditado, não sem motivos, na manutenção da democracia, igualmente desacreditada, também não sem motivos.
Por causa dele, quase enviei um currículo para o Estadão.