O filme The Tunnel (lançado no Brasil como O Túnel) é um longa-metragem australiano de terror e suspense lançado em 2011, dirigido por Carlo Ledesma.
A história se passa em Sydney, na Austrália, durante uma grave crise de seca e escassez de água. O governo estadual anuncia um projeto para reaproveitar milhões de litros de água acumulados em uma rede de túneis ferroviários abandonados no subsolo da cidade. Pouco depois, porém, o plano é cancelado sem qualquer justificativa convincente, alimentando suspeitas de que existe algo sendo deliberadamente ocultado.
Ao mesmo tempo, começam a circular rumores sobre moradores de rua que utilizavam os túneis como abrigo e passaram a desaparecer misteriosamente. Convencida de que há um encobrimento por parte das autoridades, a jornalista investigativa Natasha Warner reúne uma pequena equipe de televisão, formada pelo produtor Pete, o cinegrafista Steve e o técnico de som Tangles, para invadir clandestinamente os túneis durante a noite e registrar uma reportagem. Conforme avançam pelo labirinto subterrâneo, descobrem que a escuridão abriga uma presença humanoide violenta e predatória.
O longa alterna as imagens registradas naquela noite com depoimentos atuais dos sobreviventes, olhando diretamente para a câmera, como se estivessem participando de um documentário. Essa estrutura híbrida entre found footage e mockumentary amplia a sensação de autenticidade e faz com que os acontecimentos pareçam fazer parte de um caso real posteriormente investigado.
Assistindo ao filme, três obras vieram imediatamente à minha mente. A primeira foi o segundo episódio da segunda temporada de Arquivo X (The Host), pela ideia de uma criatura que habita o ecossistema oculto da cidade. A segunda foi Bruxa de Blair, pela combinação entre found footage e falso documentário. A terceira foi Marebito, de Takashi Shimizu, pela maneira como transforma o espaço subterrâneo em uma espécie de psicogeografia urbana, isto é, um território que revela o inconsciente da metrópole. Existe uma “cidade abaixo da cidade”, onde desaparecem não apenas a infraestrutura e o conforto, mas também as convenções que sustentam a vida civilizada.
É justamente nesse ponto que The Tunnel revela sua dimensão mais interessante: o horror funciona como uma metáfora política. O subterrâneo não representa apenas um cenário assustador, mas aquilo que a cidade escolhe esconder para preservar a aparência de normalidade. O cancelamento inexplicável do projeto governamental, o desaparecimento dos moradores de rua e a completa indiferença das autoridades sugerem que determinadas vidas simplesmente deixam de possuir importância quando passam a existir fora do campo de visão da sociedade.
Essa leitura ganha ainda mais força porque parte de uma realidade bastante concreta. Em grandes metrópoles ao redor do mundo, populações em situação de extrema vulnerabilidade frequentemente utilizam túneis, galerias pluviais, redes de esgoto e linhas ferroviárias desativadas como abrigo. O filme parte exatamente dessa premissa. Antes mesmo de apresentar um monstro, ele apresenta pessoas que já haviam sido transformadas em invisíveis pela própria estrutura urbana. A “sombra” da cidade não é apenas um espaço físico, mas um espaço político e social, para onde empurramos tudo aquilo que não queremos enxergar. Na vida real, essas pessoas são ignoradas. Na ficção, tornam-se as primeiras vítimas ou acabam sendo confundidas com o próprio monstro.
Nesse sentido, o Tunnel Stalker pode ser entendido menos como uma criatura isolada e mais como uma manifestação extrema desse mecanismo de exclusão. Ele nasce no mesmo espaço em que o Estado deixa de existir e onde a sociedade deixa de reconhecer a humanidade daqueles que ali permanecem. O verdadeiro horror talvez não seja sua existência, mas o fato de que foi necessário abandonar completamente aquele território para que ele pudesse surgir.
Ao descerem as escadas que conduzem ao subsolo, os integrantes da equipe de reportagem também atravessam uma fronteira simbólica. Na superfície, são protegidos pelo contrato social: iluminação pública, policiamento, tecnologia, leis e toda a infraestrutura que organiza a vida cotidiana. Nos túneis, porém, essa ordem desaparece. A jornalista, o produtor e os técnicos deixam de ser profissionais investidos de autoridade e passam a disputar a sobrevivência em condições praticamente primitivas. O filme demonstra que a civilização é um equilíbrio extremamente frágil, sustentado por estruturas materiais e institucionais que podem desaparecer com poucos metros de profundidade.
No fim, The Tunnel utiliza o terror para fazer uma pergunta desconfortável: o que realmente existe sob nossas cidades? A resposta não é apenas um predador escondido na escuridão, mas um conjunto de pessoas e problemas que aprendemos a ignorar. O monstro torna-se, assim, a personificação de tudo aquilo que preferimos manter enterrado. O horror nasce justamente quando essa realidade subterrânea deixa de permanecer invisível e obriga a superfície a confrontar aquilo que ela própria produziu e tentou esquecer.