Writhing Tongue (título original: Furueru Shita, 震える舌), dirigido por Yoshitarō Nomura e lançado em 22 de novembro de 1980, ocupa um lugar singular no cinema japonês de drama e terror psicológico.
Embora permaneça relativamente obscuro fora do Japão, o filme provocou forte impacto em seu país de origem, tornando-se uma obra lembrada por seu caráter perturbador e, em certa medida, infame.
A narrativa acompanha o colapso progressivo de uma família comum após sua filha de cinco anos, Masako (Mayuko Wakamori), contrair tétano a partir de um simples arranhão no dedo enquanto brincava na lama. A rapidez com que a doença avança desencadeia crises físicas severas e dissolve, de maneira irreversível, a estabilidade doméstica e emocional dos pais.
O que torna esse filme perturbador é o fato de a tragédia não se apresentar como exceção, mas irromper a partir de um gesto banal, quase inocente, plenamente inscrito na normalidade do cotidiano.
É justamente aí que se encontra o núcleo do horror do filme. Não há um vilão, tampouco uma falha moral a ser corrigida por meio de punição ou aprendizado simbólico. A ameaça é ordinária e amoral, desprovida de intenção ou sentido. Invisível e implacável, infiltra-se na vida comum sem aviso, transformando o mal não em um evento extraordinário, mas em uma possibilidade constante. Essa proximidade com o cotidiano intensifica o terror pois dissolve qualquer fronteira segura entre normalidade e catástrofe.
Ao fundir o horror à vida ordinária, o filme confere à ameaça uma dimensão totalizante do mal, capaz de invadir todos os aspectos da existência. É nesse ponto que emerge uma inquietação fundamental. O ser humano é um ser marcado por uma fome de sentido, e essa fome entra em colapso quando a dor se apresenta sem causa, sem culpa e sem promessa de reparação. Quando não há explicação possível, nem justiça a ser reivindicada, o próprio “sentido da vida” torna-se instável.
Nesse contexto, noções como justiça e moralidade passam a ser silenciosamente corroídas. Uma criança que brinca de forma inocente é subitamente transformada em um corpo submetido a dores e convulsões, sem nunca ter merecido tal destino. O sofrimento, assim, não pode ser explicado, tampouco justificado. Ele simplesmente se impõe como um dado bruto da existência.
A forma do filme acompanha esse processo de desintegração interior. Nomura adota um estilo narrativo que parece emular o estado psicológico dos pais, recorrendo a sequências que se aproximam de delírios e pesadelos. A atmosfera de irrealidade não funcionam apenas como recursos expressivos, mas como extensões da mente exaurida. A narrativa passa a operar segundo a lógica do trauma, e não mais segundo a linearidade da razão.
Mais do que retratar a enfermidade em si, o filme se concentra na experiência psicológica dos pais, Akira (Tsunehiko Watase) e Kunie Miyoshi (Yukiyo Toake). Impotentes diante da dor da filha e dos tratamentos médicos intensivos a que ela é submetida, ambos são consumidos por culpa e desespero. O sofrimento da criança não se encerra nela mesma, mas transborda para os pais, corroendo seus corpos, suas certezas e sua relação com o mundo, até se manifestar em sintomas psicossomáticos que espelham o trauma vivido.
O filme expõe o sofrimento da criança e dos pais em sua forma mais nua e irredutível, deixando ao espectador o peso de confrontar aquilo que permanece quando todas as estruturas de sentido falham.
Diante de uma situação como essa, parece não haver muito a fazer além de recorrer a todos os meios disponíveis. Ainda que seja difícil imaginar-se nesse lugar, o meu primeiro impulso seria esgotar todas as possibilidades oferecidas pela razão e pela ciência médica, levadas até seus limites. Paralelamente, minha esperança tenderia a deslocar-se para a súplica ao divino, na expectativa de uma misericórdia capaz, de forma milagrosa, de livrar a criança do sofrimento, mesmo que isso implicasse o meu próprio sacrifício.
Quando nenhuma dessas instâncias me oferecesse resposta, o que me restaria seria a aceitação da tragédia como algo purgativo, à maneira do que se encontra na tradição dos santos. Não porque essa aceitação atenue ou explique a dor, mas porque atribuir à tragédia um caráter purgativo, ainda que opaco e incompreensível, torna possível atravessar um sofrimento que, de outro modo, faria não apenas a vida, mas a própria ideia de vida tornar-se insuportável.