Viver (Ikiru) é um filme de 1952 dirigido  por Akira Kurosawa, baseado no livro A Morte de Ivan Ilitch de Tolstoi .

Antes de falar do filme de Kurosawa, falemos da obra original.

Neste livro, acompanhamos a vida de Ivan Ilitch, um homem que vive uma vida aparentemente perfeita. Ele se dedica ao trabalho e busca ascender na carreira, além de possuir uma família e uma vida social estável.

No entanto, sua vida sofre uma reviravolta quando ele é diagnosticado com uma doença incurável.

À medida que sua doença progride, Ivan Ilitch passa por um processo de deterioração física e emocional. Ele enfrenta dores intensas e percebe que sua existência está chegando ao fim.

A partir desse momento, ele começa a refletir sobre sua vida e questionar o verdadeiro significado da existência.

Ivan Ilitch percebe que passou a maior parte de sua vida perseguindo o sucesso e buscando a aprovação dos outros, negligenciando sua felicidade pessoal e seus relacionamentos mais íntimos.

Ele percebe que sua vida foi vazia e superficial, e que agora ele está enfrentando a morte sem ter vivido plenamente.

Ao longo da narrativa, Ivan Ilitch busca reconciliar-se consigo mesmo e com os outros. Ele busca perdão e tenta encontrar um significado para sua vida antes que seja tarde demais.

Tolstoi dá um sentido cristão a história ao mostrar que a doença de Ivan Ilitch é, de certa forma, uma bênção disfarçada, pois o força a confrontar suas escolhas e a refletir sobre sua própria mortalidade.

A adaptação de Kurosawa

Akira Kurosawa faz uma adaptação fiel da obra original.

Aqui somos convidados a acompanhar a vida de um burocrata da prefeitura de Tóquio chamado Watanabe (interpretado por Takashi Shimura) que, assim como o personagem do romance original, descobre que está em estado terminal devido a um câncer no estômago.

O filme tem um claro objetivo: provocar o senso de urgência da vida nos colocando diante da morte.

Apartir desse objetivo cristalino, os apontamentos do filme orbitam a questão da diferença entre “viver” e “existir”.

Watanabe, até constatar que seu tempo nesse mundo é escasso, soterrou 30 anos da sua vida em um trabalho que não via sentido, utilidade ou propósito. A descoberta do seu câncer foi uma espécie de novo parto, algo dolorido, que colocou em evidência todo o desespero e melancolia de “uma vida que não foi vivida”.

O filme tem aspectos formais interessantes e bastante criativos que contribuem para o entendimento dos seus temas principais.

Do ponto de vista narrativo, vemos a dissecação do protagonista numa miscelânea de perspectivas que se reflete na mistura de locução heterodiegética (quando aparece um narrador que não faz parte da história apresentando o personagem principal, como se fosse um documentário) e homodiegética (quando há uma narração baseada no testemunho dos próprios personagens da história – isso acontece na cena do funeral, que é pontuada por flashbacks).

Esse dissecação em duas perspectivas assinalam o fato de que estamos diante de um personagem-modelo e que sua história vai dialogar com a nossa. Tanto o locutor heterodiegético quanto os locutores homodiegéticos não se furtam de dar suas próprias opiniões a respeito de Watanabe.

O filme também tem uma dramatização curiosa, com muitos momentos de silêncio e movimentos vagarosos, que fazem lembrar o teatro noh.

A vagorizidade do filme encontra nos planos de longa duração um sentido agudo de melancolia, tristeza e contemplação.

É notável o uso que Akira Kurosawa faz da montagem e como ela opera na evocação de sentido, tanto nos momentos mais pausados quanto nos momentos mais acelerados.

Os momentos mais acelerados também não estão isentos de dor.

Temos uma sequência em que o protagonista, Watanabe, perambula pela cidade com o jovem escritor que acabou de conhecer, experimentando os vícios que se proibiu de ter ao longo da vida – frequentar boates, beber álcool, sair com mulheres.

Essas cenas são compostas por planos curtos e cadência acelerada, intensificando o estado de ansiedade e desorientação. Longe de transmitir diversão, elas nos inquieta ao recriar o que poderíamos considerar um pesadelo.

A intenção de Kurosawa é apontar que “viver a vida” não significa necessariamente “acumular estímulos”, o que descarta o hedonismo no quadro de respostas do protagonistas em sua jornada existencial.

Assistir Viver  é um memento mori, um lembrete brutal e lírico de que em algum momento deixaremos de existir. Este filme serve como um alerta para que tomemos consciência da nossa vida e do que fazemos com ela.

A sua força está no quotidiano da história, na vulgaridade do personagem: todos conhecemos algum Sr. Watanabe. Possivelmente, também somos ele, assim como também somos Ivan Ilitch.

 

 

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