The Wire é uma força cultural inegável. Criada por David Simon, um ex-reporter policial, a série é geralmente colocada ao lado de The Sopranos como a melhor série de todos os tempos.

A série se passa em Baltimore e trata de temas como tráfico de drogas, criminalidade, operações policiais investigativas e política – tudo com um realismo metódico e corajoso, misturando os dramas pessoais de cada personagem sem negligenciar seu escaneamento social.

Isso é extremamente importante, especialmente em épocas onde o debate de questões sociais está pautada por um automatismo de slogans e as discussões estão sempre norteadas na dualidade simplista de “direita” ou “esquerda”.

A “direita” tende a resumir tudo em responsabilidades individuais. A “esquerda” tende a resumir tudo em problemas sistêmicos. Cada um, nessa perspectiva limitada, define claramente seus mocinhos e seus bandidos.

Muito além de definir bandidos e mocinhos, The Wire trabalha muito bem aquela área cinzenta que existe entre o bem e o mal, dentro de um contexto que considera tanto o individual quanto coletivo – sem se tornar relativista. Isso é muito raro hoje em dia.

The Wire desenvolveu uma reputação que transcendeu o gênero policial. Aliás, chamnar The Wire de “drama policial” deveria soar tão insultoso e reducionista quanto chamar Cidadão Kane de “um filme sobre um jornalista”.

Com a primeira temporada de The Wire, David Simon usa a investigação de um notório traficante de drogas para contar a história de uma cidade inteira. Simon habilmente nos leva dos corredores do poder para becos onde viciados morrem sem luto. É um programa de televisão sobre quase tudo: raça, classe, sexualidade, dinheiro, poder, desenvolvimento urbano, política em suas inúmeras formas, sistema legal, amizade, obsessão, dedicação, identidade, ciclo da pobreza e, lógico, as clássicas questões de bem e mal.

O policial Jimmy McNulty (interpretado por Dominic West) é o protagonista perfeito para essa série. Ele é o herói-anti-herói que consegue sintetizar muito bem o que a série representa: a aparência de impetuosidade, rebeldia e revolução combinada com uma forte substância de idealismo conservador burkeano e ordem.

Esse tipo de maturidade é a marca registrada de The Wire, assim como sua capacidade de “furar bolhas”.

Programas policiais nunca foram populares na cultura do Hip Hop, que sempre viram neles meras “propagandas republicanas” de “integridade policial”

Desde o seu lançamento, a cultura Hip Hop adotou efusivamente os temas e os personagens de The Wire nas suas músicas. Kayne West, Eminem, Sean Price, Kool A.D., Gucci Mane, Common e KA são alguns dos artistas que já fizeram músicas inspiradas na série.

Um show deve ser muito brilhante para o Hip Hop abraçar um fenômeno cujos protagonistas são policiais e informantes.

Enfim, The Wire era brilhante em sua época e soa mais brilhante hoje.

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