Sussurros do Coração é o primeiro longa do Studio Ghibli que não foi dirigido pelos co-fundadores Hayao Miyazaki ou Isao Takahata.

Yoshifumi Kondo, no entanto, nos apresenta uma típica animação ghibliana, com uma grande influência miyazakiana.

Yoshifumi Kondo, na verdade, seria o sucessor do Sensei Miyazaki – ele trabalhou ao lado do mestre em “Memórias de Ontem” (onde vemos muitas influências aqui) e “Serviços de Entregas da Kiki” – como co-diretor de animação. Infelizmente, morreu aos 48 anos, em 1998, vítima de uma aneurisma.

Trata-se de uma história simples (mas profunda) sobre a transição da infância para pré-adolescência, numa perspectiva feminina (como é de costume do Studio Ghibli) – apresentando, de forma misturada, confusa e embrionária, questões como: primeiro amor (até na perspectiva de casamento – prematuro, como é típico de uma jovem), amor não correspondido, amizade, desempenho escolar, dedicação e a busca por um talento (no caso da protagonista, Shizuku Tsukishima, tornar-se escritora) – tudo isso permeado com leves voos miyazakianos de fantasia.

O filme é permeado por uma linda letra de Country americano (Country Roads, de John Denver) e possui claras sinalizações para Alice no Pais das Maravilhas de Lewis Carroll – a protagonista, num momento, persegue um gato do metrô até uma loja de antiguidades – que parece um universo mágico, à parte do mundo.

Quando assisti pela segunda vez, fiquei intrigado com duas sensações que tive: conforto e vertigem. O conforto foi proporcionado pela modulação lírica que a animação conferiu àquilo que é quotidiano, prosaico, familiar e caseiro.

Os objetos mais simples das casas tornam-se particularmente significativos, pois evocam uma sensação serena de proximidade. Se Chesterton me fez admirar a simplicidade das coisas comuns, Mircea Eliade me fez querer especular sobre seus significados através do que entendemos como consciência religiosa comum.

Segundo Mircea Eliade, a construção de uma casa é uma analogia à criação do mundo. Não se trata de mera nostalgia, mas de uma lembrança sagrada em comum. Toda casa é um santuário e todo santuário é um resumo do cosmos.

Os objetos de uma casa possuem não apenas função, mas uma identidade. Por isso o minimalismo é tão deprimente. De relógios de parede, violinos, até estátuas de gatos antropomorfizados, todos possuem, de certa forma, um perfil e até mesmo uma biografia. Alguns possuem até nome ou títulos de nobreza, como o barão Humbert von Gikkingen. Dentro de uma casa, os objetos são mais do que coisas, são lugares onde você pode descansar o olhar e lembrar de alguma história – ou seja, eles falam.

A sensação de vertigem se dá pela ambientação externa, das belíssimas casas nos morros de Sakuragaoka, que modulam em sentido quase iniciático a dinâmica espiritual de esforço e recompensa. A vista do pôr do sol é uma recompensa pelo esforço de subir as ladeiras íngremes da região.

Tenho pra mim que o filme seria bom até mesmo sem historia nenhuma.

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